arte: loro verz

»Acordei com dor de garganta. Pensando bem, no meio da madrugada eu tossi, tosse seca, umas duas ou três vezes. Demorei para voltar a dormir. Não que sentisse dores, cólicas, dificuldade de respirar. Senti a angústia dos hipocondríacos: ó meu Deus, será que fui infectado?

O episódio coincidiu com meu dia de compras. Fui ao mercado ontem à tarde – e também a uma farmácia, para otimizar a (rara) saída de casa. Quer dizer, na noite do dia em que saí de casa, comecei a tossir. Por um instante, pareceu-me óbvio: apanhei o vírus.

Não sou o único nem o primeiro a pensar assim. A crise do corona nos faz todos um pouco hipocondríacos. O tempo está seco em Portugal, e a primavera acabou de começar. Os índices de pólen no ar são altos e, como qualquer doente de rinite sabe, isso é sinônimo de espirros, coriza e incomodações respiratórias diversas. Uma amiga, que há 30 anos tem rinite e há 30 anos sofre no início da primavera, foi assertiva depois da primeira coriza: estou com corona.

É claro que não estava – nem está. Também não estou (acho). Ao menos fui cuidadoso em minha saída ao mercado, não me aproximei de ninguém, não levei as mãos ao rosto, usei álcool gel na saída da loja e, chegando em casa, passei pano com água sanitária ou detergente em todas as compras. Até a sacola reciclável foi lavada e pendurada ao sol. Depois de tudo isso, banho. Ainda assim, quando a tosse bate na madrugada, é corona.  

Acordei com dor de garganta. Durante o dia, ela melhorou bastante. Aconselharam-me a tomar chá de gengibre, mel, limão – e juízo. Na dúvida, mantenho o isolamento, é claro, pois ir ao hospital, agora, seria pior. É um desafio ao hipocondríaco que nunca fui, mas estou. O vírus da hipocondria alastra-se tão rápido quanto o corona.«

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