arte: loro verz

»Às vezes sinto vontade de escrever poemas. Então sento diante da folha em branco e passo as mãos pelo corpo – ombros, braços, antebraços, mãos, peito, costelas, abdómen, coxas, joelhos, pernas e pés. Encolho-me até não haver para onde fugir. Espero a vontade passar.

Não é brincadeira. Espero a vontade passar. Em geral (quase sempre) passa. Desaparece com o primeiro grito na vizinhança, com a lembrança da roupa no varal ou o ronco do estômago vazio. Some tão rápido quanto surgiu, sem aviso nem cerimônia.

Então pouso a caneta, fecho o caderno, levanto e circulo um pouco pela casa. Bebo um copo d’água.

Outras vezes sinto que a vontade não passou completamente. Fica-me um rabicho de poema, um verso que me pareceu bonito, um lampejo, uma sonoridade ou sentimento especial (será o amor? será a guerra?), qualquer coisa que eu quis dizer mas não disse por uma série de razões de razão nenhuma em particular.

O verão é quente e meu coração está cheio demais.

Ando pela cidade para exorcizar o fantasma do poema não nascido e transbordar o vaso pesado do peito. Caminho até cansar, ou ao menos até me sentir completamente sólido, solidamente aterrado. Quando estou trespassado pelo poema, vago vagamente translúcido. A luz me atravessa. Coloco a mão contra o sol e vejo não os dedos iluminados, mas a própria coroa flamejante do sol, imóvel e fria, pura luz em estado de graça, a sugerir uma promessa. Uma ponta, um cisco, um raio daquela luz se mistura a mim, então, e me inquieta.

Caminho em busca de sombra.

Na semana passada eu contei que andei 23 quilômetros sob o sol de verão, sem motivo, sem razão especial, e você não acreditou. Eu mesmo não acreditaria. Não foi nada planejado: saí cedinho para comprar pão e só retornei à noite. Não tinha realmente fome nem motivo para comprar pão àquela hora, mas o espírito pedia uma desculpa qualquer e o corpo tratou de arranjá-la (como, aliás, frequentemente se dá).

Andei até que a faísca amansasse. Naquela noite dormi leve e ingenuamente, como uma criança que consome e exaure toda a sua energia com as coisas da vida, a partir da vida e para a vida, e corre e cai e chora e ri e brinca.

Havia me livrado da farpa de um poema.

À sombra das palmeiras imortais, adormeci.

Não me entenda mal, querida estranha, você já me viu eufórico a escrever poemas e crônicas e romances e ansioso por compartilhar cada detalhe, ideia, cena, vírgula e imagem como se as coisas não pudessem morrer antes mesmo de serem materializadas em palavra.

Isso acontece quando o poema se insinua em mim e a vontade de embalá-lo nos meus braços (e escrever, e viver!) não passa. Não larga os braços, mãos, peito e pés. Não deixa o estômago em paz.

Depois que enraíza e ganha vida própria, fora de mim, o poema levanta-se como uma espécie rara de palmeira, lançando uma sombra diminuta, porém gentil, sobre as cabeças que ardem por aí. Por isso o mundo inteiro melhora com o nascimento de um único poema inteiriço. E sincero.

Quem sabe o mundo melhore neste verão, minha amiga, neste verão escaldante, nesta praia lotada, onde deixo meu coração cheio de você transbordar e semeio um verso assim: o verão é quente e meu coração está cheio demais.«

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