arte: loro verz

O Facebook inaugurou problemas novos na minha vida familiar. Minha filha, de dez anos, “ganhou” uma conta no site há cerca de seis meses. Fui contra. Fui voto vencido. O poderoso argumento de que “todas as amiguinhas têm” acabou prevalecendo.

Acontece que todas as amiguinhas estavam erradas. A internet potencializou pequenas rixas. Discussões que ao vivo duravam o voo de uma borboleta passaram a se cristalizar na tela, perenes. As meninas, ao vivo tão meigas, começaram a mostrar os dentes.

Já é difícil reconhecer meus próprios amigos – senhores responsáveis, casados, ponderados – por seus comentários nos redemoinhos da rede. Conheço-os bem e, graças a Deus, conheci-os antes da internet. Não tenho dúvidas sobre seu bom caráter, sua civilidade e disposição para o bem. Mas periga que quem olhe de relance um ou outro post isolado no maremoto virtual os considere extremistas, intolerantes, agressivos.

A internet parece extrair o pior de nós, muitas vezes, e as crianças, sempre tão sinceras, são ainda mais suscetíveis a exageros. O exemplo mais conhecido é o da área de comentários dos sites noticiosos. Faça o teste. Acesse uma notícia sobre tema polêmico – aborto, fé, consumo de drogas, violência urbana, sexualidade – e vá direto ao rodapé da página. Alguns comentários são de fazer perder a fé na humanidade.

Não sei o que se passa com pessoas que, na vida “real” (material ou física) são cordatas e aparentemente tolerantes e, na internet, disseminam o ódio. O extremismo está no ar. Outro dia, fiz um comentário sobre a superprodução “Beijinho no Ombro”, da funkeira Valesca Popozuda. Uma brincadeira sobre o raio-x antropológico que se podia extrair de versos como “Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba / Aqui dois papos não se cria e nem faz história”. Nos comentários, o tom subiu: “não perca tempo com esse lixo”. “Música de pobre.” “Deveriam proibir essa ridícula de abrir a boca.” Atirada a primeira pedra, todos querem quebrar vidraças.

Fiquei incomodado. Meu comentário acabou, de certa maneira, cumprindo-se como uma maldição. Há, sim, um extrato cultural importante a analisar nesse megassucesso que prega a humilhação dos inimigos e a violência. Mas o que dizer dos que pregam a violência para calar a violência? Há justiceiros no mundo físico, prendendo pessoas a postes, e no mundo virtual, aplicando mordaças.

É isto afinal que têm em comum Valesca Popozuda, raivosos comentaristas-de-facebook, justiceiros e figuras como Rachel Sheherazade, a jornalista que defende a “legítima defesa coletiva”: o discurso da violência. A violência simbólica de um discurso que prega a intolerância, a discriminação, a coerção e o deboche.

Os adeptos dessa violência, tão comum nos fóruns da internet, segregam o espaço social entre grupos que consideram legítimos – “cidadãos de bem” (aqueles que concordam comigo) – e grupos marginalizados – os “cidadãos de mal”, dissonantes. Quem é apenas cidadão não tem espaço nessa história infantil e simplista.

Na era da internet, todos temos grande facilidade de veicular nossas opiniões sobre tudo. Mas isso não é necessariamente bom. Expressa sem ponderação nem responsabilidade, a opinião ligeira municia o preconceito. Há razões para que não possamos invocar a liberdade de expressão para propagandear ideário nazista, racista, terrorista.

Temos de ser melhores do que isso.