arte: loro verz

Cheguei a São Paulo no final de 2001. Materialmente, as condições não eram nada favoráveis: eu seria trainee (não remunerado) de um grande jornal por 4 meses e, depois desse período, havia alguma possibilidade de ser contratado.

Cheguei com cerca de um salário mínimo no bolso, para o período todo. No início tive o custo de moradia bancado, mas não outros, como o de alimentação. Transporte, só a pé. Lazer: andar. Ainda não haviam me dito como a Sé ou a República ou o Anhangabaú eram mortalmente perigosos, então eu, na inocência dourada dos ignorantes, desfrutei imensamente das calçadas tortas de São Paulo.

Logo expirou o benefício da moradia subsidiada. Sem conhecer ninguém na cidade, apelei para um conjunto de escombros verticais ocultos sob a fachada de um velho hotel na Cracolândia. A diária custava menos de dez reais. Meus vizinhos eram aspirantes a forrozeiros de sucesso, prostitutas sem passado, traficantes sorumbáticos e enigmáticos senhores de vista cansada. Paralelamente, escrevia à mão minha monografia para a faculdade de Jornalismo da UFPR, onde ainda não me formara. Nesta altura da história já mal tinha dinheiro para comer, mas comia. Para tudo se dava um jeito. Na falta de jeito, pão com patê.

Em alguns meses tudo melhorou. Achei (boa) gente com quem dividir apartamento, fui contratado e começaram a pingar os primeiros salários.

Às vezes, é claro, eu pensava em desistir de tudo. Mas nunca acreditei, de fato, que não restava mais nada a fazer senão entregar os pontos. Minha desistência, se assim fosse, seria uma decisão consciente, do tipo esta vida não é para mim. Mas aquela vida era absolutamente talhada para mim: ouvir e narrar histórias dia, noite, madrugada. Se tivesse de engolir trinta dúzias de pães com patê no caminho, que fosse. O desejo de aventura me movia.

Lembrei de tudo isso ao ouvir, nesta semana, a mesma frase fatídica. Não há nada a fazer. Ouvi-a de duas pessoas, em dois contextos completamente distintos. Ambas eram muito jovens, tão jovens quanto eu ao chegar a São Paulo.

Bem, não que isso faça qualquer diferença. Se velhos pronunciassem as mesmas palavras desoladas eu me revoltaria ainda assim. Mas o fato de jovens tão jovens terem dito aquilo para mim apenas acentuou os absurdos dessa nossa natureza melindrosa. E a violência do estado de inércia. Não fazer nada é fazer alguma coisa.

Um dos jovens reclamava da impossibilidade de sair da casa dos pais. Já formado e já empregado, dizia: não há nada a fazer. É infeliz na casa dos pais, claro, porque precisa viver a própria vida. Por outro lado, e não há nada a fazer, ganha pouco demais para viver numa cidade cara como São Paulo.

Outro dizia que não há nada a fazer diante das injustiças do nosso cotidiano.

Não me interessou discutir, naquele momento, o que poderia ser efetivamente feito num e noutro caso. Minha convicção de que sempre há o que fazer, de que sempre há ao menos uma escolha possível, é quase dogmática. Então quis apenas saber o que detinha – e também o que movia – aquelas pessoas.

Pensei em mim. O que me move? O que me faz sair da cama todos os dias muito mais cedo do que eu gostaria, dar aulas, escrever, ler, estudar, falar, sair de mim, viver? Não há resposta fácil, óbvia, inquestionável.

Como um velho filósofo, saí pelas ruas de São Paulo com uma lanterna em busca da resposta: o que te move?

Disseram-me dinheiro, necessidade, culpa, medo, amor, tesão, vaidade, orgulho, conhecimento, ego, pernas, sonhos, fé, gentileza, pessoas, comida, energia cinética, esperança, possibilidades, projetos, metas, raiva, literatura, novidade, coragem, injustiças, curiosidade. Pensar.

E o que te paralisa? Disseram-me medo, tristeza, obstáculos, inércia, conservadorismo,  ignorância, dúvida, falta de objetivos, falta de saúde, falta de dinheiro, indecisão, angústia, desesperança, trânsito, rotina, solidão, desencontro, injustiças, egoísmo, raiva. Pensar.

Refleti sobre as coisas mais mesquinhas e sobre os dons mais elevados. Pensei sobretudo como somos tão diferentes e tão parecidos entre nós. Tão humanos, demasiadamente humanos.

Desde a época do pão com patê na Cracolândia até hoje, do pão com patê na Pompéia, o que me move e o que me paralisa provavelmente mudou. O que sei, contudo, é que em cada fase de minha vida ímpeto e freio foram a mesma coisa. O anseio pelo novo e o medo do novo me moveram e paralisaram. O medo me moveu e paralisou. A beleza me moveu. A beleza até hoje me paralisa.

Hoje, neste minuto, neste irreproduzível momento dos meus 33 anos de idade, eu diria que é o amor que me move e paralisa, é para onde corro e de onde corro, é encontro e desencontro, meu deus aterrador sobre todas as coisas.

O que nos move e o que nos paralisa? O que nos move é o que nos paralisa.

 

______________________________________________

*Siga Males Crônicos no Facebook.

Atualizações todas as segundas-feiras, acompanhe.

Twitter do autor: http://twitter.com/essenfelder

______________________________________________