arte: loro verz

 

»O que significa conhecer alguém?

A provocação vem de uma de minhas amigas mais antigas. Conhecemo-nos há 20 anos (ela insiste em fazer as contas e dizer que são 18, do que discordo). Já me viu às voltas com todo tipo de angústia e de euforia – e, em ambos os casos, oferecia chá para acalmar as palpitações. Testemunhou os tantos papeizinhos em que eu rabiscava poemas e impressões. Acompanhou quando mudei para São Paulo, quando passei aperto, quando a carreira jornalística enfim decolou até que eu, inquieto, mudasse de direção.

Tenho certeza de que se espantou quando muito jovem eu anunciei que estava grávido. Anos depois, que iria me divorciar. Conheceu minha filha ainda bebê, me contou detalhes de como ela mesma foi mãe de suas irmãs caçulas. Adotou-me como caçula também.

Em 20 anos me viu enamorado de uma escritora, de uma bailarina que não dançava e de uma dançarina que não bailava.  Quando eu saía da casinha, me diagnosticava com presteza, sem precisar de mais do que um telefonema.

Tecemos confidências à distância; ela em Curitiba, eu em São Paulo.

Sempre fomos estranhos, os dois, e nessa estranhice nossa amizade esculpiu o tempo. Leu, por cartas, longos relatos dos melhores e dos piores anos de minha vida. Muito mais pragmática do que eu, que vivo perdido em devaneios, terminava todas as nossas correspondências com uma singela advertência: “Não esqueça de dar água para a Canela” – a cachorra, que não tinha nada a ver com minhas angústias existenciais. Nunca esqueci. Canela passa bem.

Nas cartas, ela gostava de colar trechos de Fernando Pessoa, Hilda Hilst, Drummond. Achava sempre algo adequado para expressar o que a linguagem corriqueira não tocava.

E hoje, quando eu conto da minha vida, sacudida que foi nestas últimas semanas, sacudida por um espanto, ela ouve pacientemente. Ouve e ouve, até que me interrompe quando lhe digo que “me conhece bem”. Insiste que não: somos dois estranhos. Adoráveis estranhos.

Então, teimosa, insiste em questionar: o que significa conhecer alguém?

Continua: ela não sabe o que eu como, o que eu ouço, que horas acordo, que horas durmo, o conteúdo de minha geladeira, a estampa das camisetas, a cor dos sapatos; do salário, das multas, da validade do passaporte, da louça, da tinta, da cerveja, das tatuagens.

Além disso, não temos muita convivência, digamos, presencial. Em 20 anos passamos quantas horas na mesma mesa? Vinte, quarenta? Parece pouco.

Ela sabe das confidências: dos meus sonhos e anseios. Dos pesadelos. Sabe tanto, ela mesma reconhece, quanto meu antigo terapeuta. Então indaga: isso quer dizer que o terapeuta “me conhecia bem”?

É uma boa pergunta, e já não sei respondê-la. Suas perguntas são sempre muito boas, minha amiga. Mas não tenho dúvida de que me conhece bem, pela simples percepção que você tem do que se passa comigo, sem precisar de muitas palavras. Pela sabedoria com que me desarma quando parto para o mundo cheio de expectativas.

Conhecer, então, talvez seja isto: manter as antenas da empatia sintonizadas. Para isso, não é preciso conviver, nem saber as cores das camisetas no armário, nem o conteúdo da marmita. Conhecer não é uma conquista estática: é perceber. Conhecer é reconhecer, e você não precisa de mais de um minuto para me reconhecer. (Por mais estranho que eu ande!)

Conhecer é sempre um conhecer agora, porque as pessoas, elas também podem mudar, podem se tornar irreconhecíveis. Quanta gente se tornou irreconhecível, na minha vida. Quanta gente desconheci! Quando isso acontece, ajustamos as antenas – ou nos afastamos  – até que retorne a sintonia. Conhecer é um exercício de empatia.

Agora, quando digo que você me conhece bem, você ri. E eu sei por que ri. Eu também conheço você.«

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