arte: loro verz

»Sorridente, o príncipe passeava pelo pátio do castelo quando ouviu o murmurinho distante da turba. Estremeceu.

Os selvagens estavam chegando.

Imediatamente lembrou da princesa, razão de sua existência, a virgem dos olhos vivos, e correu em seu auxílio. Estava no jardim de inverno, ajoelhada sobre a relva, alisando flores na palma das mãos. Sorria e cantarolava baixinho, como sempre fazia, enxergando o que ninguém mais via.

– Princesa, ó princesa, os bárbaros estão chegando – ele disse.

Inquieto, tomou a princesa pelos braços. Correram pelo castelo abandonado em busca de um lugar seguro. Ela, como numa brincadeira espontânea e repentina. Ele, como num pesadelo longamente aguardado. As portas dos quartos estavam velhas e quebradiças. Nos salões, amplos e iluminados, já não havia mobília.

No horizonte já se avistavam os invasores. Incontáveis selvagens: homens, mulheres e crianças. Batiam os pés com firmeza enquanto caminhavam; com a certeza dos bárbaros eles marchavam. Em breve estariam ali, à porta do castelo. Em breve povoariam cada canto daquele recanto paradisíaco.

***

Até então o príncipe não se preocupava com nada. Passava os dias caminhando pelo castelo, mantendo a estrutura, embora deserta e antiquada, razoavelmente limpa e arrumada. Fez dali sua morada com a princesa. Passavam os dias em conversas, leituras e brincadeiras. Comiam, bebiam, liam, escreviam, riam, choravam.

Agora, ao som da marcha, preocupava-se com tudo. Tudo acabaria. Os belos dias escorriam para o passado.

Sem mais alternativas, pressionado pelo avanço incessante dos colonizadores, voltou ao jardim e desceu cuidadosamente a princesa ao poço exaurido do pátio.

***

Sentindo-se já um pouco triste, a princesa ensombrecida e distante, o príncipe arrancou todas as suas roupas e, arremessando-as também ao buraco, cobriu-se de trapos enquanto aguardava a inevitável marcha.

Já não era príncipe altivo. Apenas homem. Mas ainda homem.

A princesa contudo cantava. E ele ainda ouvia. Inquieto, cobriu o poço com o algodão fresco dos campos ao redor do palácio, onde às vezes deitavam para admirar o céu. Não ousava dizer: cale-se, princesa. Nem: cante mais baixo.

Agora o som abafava.

E a marcha avançava.

Vestido em trapos, confuso e preocupado, sentiu pela primeira vez uma lufada cítrica, o perfume da princesa, que lhe lembrava lima e bergamota. Percebeu que o aroma denunciava sua preciosa carga. Com cuidado, foi cobrindo o poço de terra e sal, e ao redor dele plantou árvores frutíferas e arbustos variados, disfarçando o cheiro que escapava.

***

Indiferente a tudo, a marcha avançava. O príncipe aflito levou a mão à cabeça, mas sobre a cabeça não encontrou nem coroa nem nada. Era pouco mais que homem, agora. Um maltrapilho em terra arrasada.

Estremeceu uma última vez. Por entre os poros do poço uma luz fina, fria, ainda feria a sua delicada retina. Eram os olhos da princesa, pensou, ou quem sabe suas jóias caras.

Laboriosamente afundou as mãos no barro e preencheu cada fenda, cada pequena fissura por onde o som, o cheiro, a luz ainda transbordavam. Cobriu tudo perfeitamente, como se cobrisse um fino. Perfeitamente liso, agora.

***

Terminou o serviço com os bárbaros já às portas, com seus gritos e cuspes, risos e histeria.

Terminou: o poço completamente plano, imperceptível. Largou-se ao chão, enfim. Exausto e maltrapilho como um mendigo surrado. Fechou os olhos e aguardou seu destino com um meio sorriso enigmático.

Seria poupado. Ou melhor: poupariam a princesa. A sua princesa incorruptível, a sua princesa;

a sua princesa para sempre encapsulada.«