viagem arte: loro verz

Uma viagem é feita de pedras, paisagens, direções, confusões, atalhos. Iscas para os olhos: monumentos.

O Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa, foi construído no século 16. Sua imponência impressiona desde a torre de Belém, de onde se vigiava a entrada da capital pelo Tejo. Alfama é o primeiro bairro lisboeta; com seus inúmeros becos e relevos, resistiu ao terremoto de 1755. Em Sintra paramos numa confeitaria de 160 anos de idade em que foi criado um doce chamado travesseiro. Na universidade de Coimbra, mais antiga de Portugal, morcegos preservam livros comendo insetos à noite. No Palácio da Bolsa do Porto está o salão árabe mais bonito da Europa, com 20 quilos de ouro laminado nas paredes.

Vi tudo isso. Mas, de tudo isso que vi, pouco me ficou. Talvez façamos muitas fotos de monumentos justamente por isso: porque passam. Erguem-se imponentes por centenas, milhares de anos sobre a terra. Nos nossos olhos e na nossa memória, contudo, passam como o vento.

Os castelos, feitos de pedra, parecem às vezes feitos de pó.

Um amigo me emprestou um guia de viagem para Portugal. Os roteiros eram divididos em museus e atrações históricas, bares e restaurantes, compras. Séculos cá e acolá. Repare na decoração com motivos renascentistas. Atente para o gárgula da fachada. Observe a vista do alto da torre. Este pórtico foi construído há seiscentos anos para conter invasores.

O problema dos guias é sua crônica falta de paixão.

Agora, era eu o invasor contra os pórticos de seiscentos anos. O primeiro passo de minha estratégia militar é sempre o mesmo: perdição. A viagem só começa realmente quando aquele misto de pânico e euforia tomam conta de você: perdido, confuso, à deriva. Enfim aberto para todas as possibilidades do mundo. (Ficar é fechar-se, viajar é se abrir.)

Então parar onde o corpo pedir. Depois prosseguir. Olhar com os olhos vadios as esquinas, becos, construções. Olhar sobretudo as pessoas.

Faço um tipo de turismo peculiar – por isso, talvez, prefira viajar sozinho. Faço turismo pelos rostos dos passantes, pelas rugas, pelos gestos, jeitos de falar, andar, sorrir, sofrer, correr, comer, flertar, brigar, chorar. Turistei pela língua batida nos dentes de um grupo de estudantes, e pelo flerte desajeitado de adolescentes na av. Liberdade, e pelos passos firmes dos velhos nas ladeiras de Lisboa, e pelo alvoroço das crianças em véspera de Natal numa praça do Porto, e pela discussão de um casal de namorados à mesa do café.

Amo os museus e suas coleções, amo as pedras seculares, amo obras de arte que me emocionam. Mas esses lugares estão tão apinhados de turistas – um tipo particular de gente, um tipo muito atarefado, com câmeras, guias e checklists impossíveis, um tipo muito apressado e agrupado em ruidosos bandos – que às vezes troco o museu pela rua, onde faço meu turismo particular de gentes comuns, infinitas.

Perguntaram-me, à volta, como é Portugal, como foi a viagem. Falo de museus, falo de palácios. Não percam Sintra. O mosteiro dos Jerônimos. Igrejas de mais de mil anos.

Saco as fotografias do celular. Às vezes tenho dificuldade para explicar do que tratam. Museus, castelos, pedras.

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LANÇAMENTO do meu livro de contos, As Moiras, dia 17/12 a partir de 19h no bar Canto Madalena, em São Paulo. Venha me conhecer, tomar uma cerveja e levar um exemplar autografado. Traga os amigos! Confirme aqui

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Mas não esqueço do velho que me perguntou as horas em uma rua qualquer do Porto. Percebendo que sou brasileiro, quis saber para onde eu ia. Então refez todo o meu roteiro, indicando outros lugares, melhores. Então me levou a um posto de gasolina para comprarmos um bilhete de ônibus. Então me deixou no ponto, indicou o horário e apertou-me as mãos. Se puderes me dar 3 euros, ele disse. Eu ri, fascinado com o guia informal. Estendi-lhe três moedas e apertei novamente suas mãos. Lembro da marca amarelada de nicotina na sua pele, das sobrancelhas um pouca caídas e dos olhos melancólicos. Lembro da boina furta-cor e das calças quadriculadas. Da camisa vinho e do seu português quase incompreensível – “Torre dos Clérigos” só entendi na quarta tentativa.

Nenhuma fotografia captou a moça que me estendeu a mão enquanto eu tentava patinar no gelo. Nenhum guia dizia: vá patinar no gelo, caia, talvez lhe estendam a mão. Ela chegou com destreza ao meu lado, deslizando graciosamente, e perguntou, rindo-se: Queres ajuda? Não recusei.

Adverti que iria acabar derrubando ambos. Derrubei. Levantamos; ela riu, eu ri, depois seguimos nossos destinos.

Como dizer, em qualquer guia, a qualquer tempo: não perca o sorriso de uma portuguesa num rinque de patinação. Caia. Leve band-aids porque provavelmente você machucará os pés (esfolei-me razoavelmente, como muito ocorre).

As pessoas, feitas de pó, parecem às vezes feitas de pedra. Sua memória perdura. O sorriso, um gesto, trejeitos, a maneira de falar.

Nenhum guia indica isto, até porque seria assim a falência dos guias: 

– Esqueça os monumentos, perca-se e fale com as pessoas. Em qualquer viagem, a qualquer tempo, em qualquer lugar: as pessoas.

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