arte: loro verz

Impedido de trabalhar de bermuda, um homem decide trabalhar vestindo saia. É verão no Rio de Janeiro, e as sombras da cidade, fatigadas, borbulham. Nas ruas os homens andam sem camisa. As mulheres suam em vestidos curtos. À frente a praia se abre aos corpos quase nus, seminus, às vezes mais do que nus em insinuações diversas.

Mas, no escritório, o homem é impedido de trabalhar de bermuda.

Eu não entendo de moda, muito menos de bermuda. Não sei avaliar quantos negócios seriam perdidos se, subitamente, funcionários de escritórios de Norte a Sul do país usassem bermudas. Em São Paulo, o Tribunal de Justiça dispensou os advogados do uso de terno e gravata. Não se teve notícia de mais ou menos caos processual após a medida.

O verão é cruel com as formalidades, com a pompa e a circunstância. Terno e gravata, recepção de casamento, festa de debutante. Mesmo um singelo beijo no rosto, um aperto de mão, qualquer aproximação é cautelosa. Estamos sempre suados, úmidos, flutuando na névoa grossa do calor sem fim. No inverno, o amor é mais gostoso.

Mas o inverno não chega, e, cansado do tempo seco e quente, decidi me desfazer de todas as coisas pesadas. Eu nem sei aliás se houve inverno um dia, se existiu qualquer outra estação que não fosse esta: verão. O escaldante, seco e infatigável verão.

Contra ele, investi na faxina. Primeiro os armários, de onde tirei sacos e sacos de roupas para doar. Ternos, agasalhos, pijamas, camisas, gravatas, meias, luvas. Depois mantas, cobertores, roupões. Tudo o que era quente, calórico, tudo o que inspirava calor num calor desnecessário eu quis ver longe de casa – como se isso, de alguma maneira, pudesse amenizar meu calor.

A temperatura, contudo, continuou batendo recordes. A casa ardia como asfalto mole, tremulando ondas de calor. Estendi a faxina aos móveis, à marcenaria. Doei estante, sofá, cadeiras. Queria a casa nua como eu, livre, entregue ao vento.

Mas o calor não passava. Até nos meus sonhos o calor que eu sonhava me assombrava. Dormia mal. No meio da noite, levantava. Acordava cansado, sem saber se havia dormido ou não. O ar seco, áspero, rasgava a garganta. Até o meu sotaque curitibano derreteu, na abrasão paulistana. Não falo mais “leite quente” com o “e” bem pronunciado. Evito até pensar na palavra quente.

No calor acontecem as maiores barbaridades. O sol abrasa a pele, a casa e a alma. Prolongado, interminável, o calor se entranha na gente: cronifica como um mal qualquer. É difícil pensar, no calor. É difícil pensar em qualquer coisa que não seja nele mesmo, o calor. Qualquer conversa de elevador se torna custosa. É difícil amar, no verão.

No metrô lotado, o olhar do passageiro flutua sem direção. A qualquer pergunta a resposta é igual: estou derretendo. Tudo derrete: o raciocínio, a disposição, a cordialidade. Ninguém mais dá bom dia, ninguém me oferece boa noite. Ouço apenas muxoxos resignados. Está quente. Como está quente.

O ar-condicionado é apenas uma trégua – e, ainda assim, sujeita a apagões. Na guerra, o calor vence. O calor embrutece. Os moradores de rua cozinham à sombra. Tenho pena. Pessoas comuns pregam violência contra a violência. Sob a maior onda de calor da história, o Brasil enlouquece.

O maior apagão acontece dentro da gente.