arte: loro verz

O meu primeiro beijo aconteceu durante um show do Lulu Santos. Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, por volta de 1993. Virgem de tudo, apenas toquei a mão da menina que me fitava fixamente pela eternidade de “De Repente Califórnia”. Ela, amiga de uma amiga, aspirante a bailarina, morena, miúda e sorridente, tomou a iniciativa. Rendi-me. Achei curioso, engraçado, estranho; excitante. Eu não sabia o que fazer, não sabia exatamente como reagir. Minha educação sentimental – e física – era bastante tímida.

Sim, precisei ser ensinado – e, por sorte, tive boa professora na matéria. Não há do que se envergonhar: ninguém nasce sabendo beijar. Um beijo não é nem sequer um gesto natural. Um beijo é um código. Um beijo romântico, de língua, um beijo erótico, não é um ato natural. Aprendemos a fazê-lo (e, em geral, gostamos muito de praticá-lo).

Em algumas culturas a demonstração de afeto e desejo – esses sim, instintivos – passa longe do beijo; é comandada por mãos, bochechas e até narizes. Por ruídos e cheiros. Nem todo mundo beija na boca, e, segundo alguns historiadores, a história primitiva do beijo nem é ligada ao romance, mas ao olfato. Era através do cheiro, percebido muitas vezes na proximidade dos lábios, que os nossos ancestrais se reconheciam e autorizavam.

Beijo bom é sempre polêmico, portanto não faltam desavenças na história do beijo. Uns antropólogos dizem que o beijo na boca deriva de uma prática maternal: mastigar a comida e então passá-la à boca do bebê. Assim como fazem os passarinhos.

Qualquer que seja a versão da história, o beijo nasce sem etiquetas: nem hétero nem bi nem homossexual. Beijo.

Na Renascença inglesa, a beijação era tão democrática que, segundo a autora de “História Íntima do Beijo”, visitantes deveriam beijar o anfitrião, a anfitriã, seus filhos e até os animais domésticos ao pisar numa casa. Tudo na boca. Para evitar doenças, teve rei por lá que proibiu o beijo – um problema de saúde pública.

O beijo de língua dizem que é muito mais recente, coisa do século 20 mesmo. Não tem nem cem anos, portanto. Boa desculpa para todos os bocas virgens: esse negócio é muito novo na história da humanidade, é preciso tempo pra entender, aprender, praticar. Sem pressão.

Mas a magia do mundo codificado – do beijo e dos signos todos que construímos com o engenho humano – é justamente essa: passar-se por natural. O mundo codificado por arte, alfabeto, religião, ciência e tecnologia, sobrepõe-se ao mundo natural com perfeição, como um tapete encobre a terra indomada.

Se o beijo é um código inventado pelo homem, qual é o significado de um beijo? Um beijo nunca é apenas um beijo. É sempre muito mais do que o movimento de músculos faciais. Não há beijo inocente, beijo bobo, beijo de nada. Um beijo pode ser frio, mas não vazio. Pode ser ruim, pode ser bom, pode ser quente, pode ser triste. Pode querer dizer olá ou adeus, pode pedir ajuda ou mostrar repulsa, pode selar o destino de vocês dois.

Um beijo não é apenas um beijo. O beijo é o prenúncio de algo.

Todo beijo deve ser respeitado.