arte: loro verz

»Tenho conhecido muitos nômades nos últimos meses, especificamente, “nômades digitais”.  Era uma expressão que eu via em artigos de revista e que parecia designar algo muito abstrato, do campo do fantástico: pessoas que viajam o mundo enquanto mantêm empregos (ou melhor, trabalhos) razoavelmente fixos, executados pela internet.

Pois, descobri que elas existem – e se multiplicam. Conheci gente que trabalha com marketing, com educação, com design, com jornalismo, com astrologia, assim. Uma hora na Espanha, outra na Itália, outra na França, outra na Índia, outra na Argentina. Parece emocionante. Gosto da ideia de andar leve e de manter o movimento. Meter a vida inteira em uma ou duas malas; nada extra, nenhum peso a mais, nem um grama que não possa ser carregado pelo indivíduo sozinho.

De certa forma, sou uma dessas pessoas. Mantenho trabalhos em São Paulo enquanto viajo nos intervalos de estudo. Mas tudo com muita moderação e pouco glamour: no fim do dia, ganho em real e gasto em euro, o que impede qualquer extravagância.

Aliás, é por isso que em geral o padrão de vida dos brasileiros nômades despenca, na estrada. O padrão de vida material, ressalte-se. Para alguns é um choque de realidade. Para outros, libertação. A gente deixa de frequentar restaurante, ter carro, usar táxi, comprar besteiras no supermercado, e precisa ficar muito mais atento às contas de luz, água etc. Mas há a liberdade de trabalhar de casa, de um café e até de um banco de praça – como, aliás, já fiz.

No fim do dia, assistir o pôr do sol de fora de um escritório é o suficiente para compensar a penúria material.

Mas, como em tantas fantasias que a gente cultiva, eu acho que é gostoso brincar de nomadismo para desmistificar o nomadismo. Nos últimos tempos, reparei que o verbo viajar foi perdendo espaço no meu vocabulário. Em seu lugar, outro ganhou espaço: construir.

Assim como há tempo de semear e tempo de colher, como dizem os sábios, deve haver um tempo de viajar e um tempo de erigir. Um tempo de criar, fazer, erguer, consolidar. Instituir pequenas rotinas – moer os grãos de café, deitar a água fervente sobre o coador, deixar o cheiro adocicado tomar a casa. Abrir a casa, decorá-la, povoá-la de bichos, plantas e gente. Essas coisas a gente não consegue fazer, estando na estrada.

Interessa-me cultivar um equilíbrio delicado entre os espaços vazios e os espaços preenchidos por afetos que demandam tempo. Um balanço entre descobrir e conhecer, entre experimentar e saber.

Experimentei, vi. É chegado o tempo de construir.«

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