arte: loro verz

»De repente, não mais que de repente, da tela apagada fez-se luz.

– Oi, sumido, rs.

A quarentena descongelou corações. Ou será o desespero? Um último arrependimento antes do Juízo Final? Não sei. Entre todas as amigas e amigos deu-se o mesmo. Quem não mandou mensagem, recebeu. Os destinatários são sempre os mesmos: ex-amantes, namorados, maridos e esposas quiçá. Ou só aquele crush que nunca virou nada, digamos, concreto.

– Como você tá nessa quarentena?

Perguntava se aquele ainda era o meu número, já que há tempos não nos falamos. Gastei alguns segundos olhando para a minúscula fotografia no aplicativo de mensagens. Quem era aquela pessoa? Seria possível? Ela?

– Fiquei preocupada. Enfim, se quiser falar, estou aqui. Espero que esteja bem.

Ampliei a foto. Sim, estava diferente, bem diferente. Não só fisicamente: havia algo diferente assim, no plano abstrato. Algo, algo no ar. Seria a aura dos arrependidos?

– Aqui está tudo bem. Quer dizer, tão bem quanto possível.

O coração acelerou, músculo curioso, e rememorei em um instante a história toda, do início ao fim. Dizem que a vida passa diante dos olhos no segundo final, mas acho que no segundo inicial também é possível reviver. Talvez os bebês, assim que vêm ao mundo, lembrem da vida uterina – ou de vidas passadas – e por isso chorem tanto.

– Vi que lançou livro. Comprei.

Lancei. Por enquanto, só digital. Tem um monte de histórias lá, inclusive algumas nossas, de muito tempo atrás. E muita conversa jogada fora, apreciação de passarinho, recital de poesia.

– Está em Portugal? Cuide-se, por favor.

Eu venho me cuidando. Nem contei que virei mestre de pães e bolos. A meta, audaciosa, é sair da quarentena um tanto mais prendado – já que a saúde mental inevitavelmente é prejudicada.

De resto, deixe-me pensar, tenho visto filmes, lido livros, estudado (sem muita concentração, confesso, mas tentativas) e praticado exercícios em casa. Passo metade do dia na cozinha. Eu nunca sei a diferença entre grandes mudanças e grandes permanências – às vezes parece tudo parte de um grande plano, tudo conectado, e às vezes rendo-me ao aleatório. Passa um furacão e muda toda a nossa vida, vira tudo do avesso (do lado de fora ou do lado de dentro) e não sei se recoloco as coisas no lugar ou se aprecio as mudanças na paisagem.

Por preguiça, aprecio.

No meio da tarde sento na varanda e olho a rua semideserta com uma xícara de café preto. A vizinha olha para mim. Preciso ganhar dinheiro. Para me distrair, recito poesia. Plantei um pezinho de hortelã e o cheiro invade o quarto. O orégano não floresceu. Estou procurando manjericão para fazer um novo pesto.«

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