arte: loro verz

»O amor, essa palavra gasta, está nas bocas das pessoas que não amam. E das que amam. E das que acham que amam e das que fingem amar. É indiferente: está nas bocas de toda a gente, o amor.

Mas ele e eu nos tornamos completos estranhos, agora. Não nos reconhecemos mais. É um amor estranho, digo, este amor novo e hesitante, que convive com o medo de amar. Um amor de borboletas no aquário, dançando pra lá e pra cá, sugerindo a delicadeza, a liberdade e a beleza que podem um dia ter – mas não terão jamais, aprisionadas em telas. É um amor estranho, o amor dos que temem amar, mas que juram que sim, que amam demais.

A minha criação talvez tenha sido de outro tempo – ou simplesmente de outro jeito. Não sei. Talvez seja a diferença entre aprender a amar pela literatura e  aprender a amar por aplicativos. Ou não. Depois de crescido, percebi que o ódio que eu tinha, se é que o tinha, era também amor. E que o contrário do amor não era o ódio, mas sim o medo.

Onde há medo não há amor, onde há amor não há medo. Assim é. Os desafios e angústias do dia a dia obviamente não desaparecem no coração enamorado. Antes disso, multiplicam-se. Há dúvidas sobre o aluguel e os salários, sobre a saúde e sobre o dia de amanhã. Mas olhos nos olhos, um diante do outro, entre o casal, não há medo do amor. Não há medo de amar. Isso não existe. 

Se existir, chamemos de outra coisa. Chamemos esse amor coxo de curiosidade, de confuso e ardente desejo. Chamemos de carência, de afeição. Chamemos de paixão. A paixão sempre instila medo nas pessoas. Um medo fatal, palpável, fisicamente sentido, de que tudo acabe a qualquer momento: o laço e a vida.

O amor não quer saber disso não.

Ele dá de ombros. Não zomba, mas também não leva isso a sério. O amor é o sentimento mais corajoso que eu conheço. Não teme nem sequer não ser correspondido. Não teme nada. Ele segue em frente, sempre, e mesmo que toda a gente lhe seja indiferente, não hesita: sabe do seu valor.

O amor, se é amor, não precisa provar nada a ninguém.«

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