arte: loro verz

»Nós deveríamos ir ao cinema, eu falei, e para o meu espanto você disse: sim. Saí de casa no meio da tarde e pedalei até a bilheteria. Dois ingressos, por favor. Qual filme? Qualquer filme. Tanto faz. O nosso filme a gente inventa.

A sessão já havia começado e nada de você chegar. Ou você já estava lá? O nosso filme: velha película granulada com um cara e uma garota se distraindo da falta de sentido da vida. No fundo uma trilha sonora alegremente nostálgica – um jazz, talvez? Potato Head Blues, do Louis Armstrong. Às vezes tenho a nítida impressão de que a minha vida foi roteirizada pelo Woody Allen.

Quando me empolgo eu falo demais; assim, meio neurótico, meio ridículo, permanentemente espantado com os mistérios da vida. Atravesso São Paulo a pé, de bicicleta, fascinado. Flutuo até as salas em que você não está. Às vezes eu quebro a quarta parede e converso com ele, o Grande Roteirista. Você já fez isso? Não resisto. Ele não responde diretamente, mas escuto os seus sinais. São coincidências inacreditáveis, sonhos premonitórios, acasos incríveis – tão delicados que pode demorar muito tempo para a ficha realmente cair. E tem a fotografia: o preto e branco que sutilmente ressalta os contrastes que a gente, sozinho, na correria de trabalho, exposição, botecos e saudações, não repararia. Copas de árvore riscando o céu de outono, lua refletida no para-brisas dos carros, pessoas apressadas atravessando a avenida Paulista como num estranho balé, sem jamais esbarrarem umas nas outras.

No meio dessas cenas banais, a câmera rapidamente registra um olhar, um sorriso. Às vezes, congela sobre um rosto. A audiência saca: dois estranhos vão se conhecer logo mais.

E a gente logo se reconhece. Existe alguma coisa no ar. Eu quis te perguntar: garota, de que filme você vem? Será que o meu nome está nos créditos também?

Mas o roteirista é habilidoso, e o casal não pode simplesmente ficar junto sem empecilhos. Para cada encontro, um desencontro. O escritor enfia a mão cintilante no saco de complicações e aleatoriamente começa a retirar os papeizinhos: talvez eles se separem pela distância de um oceano; talvez se constranjam por uma diferença de idade ou de grana; talvez um deles, ou ambos, estejam comprometidos; talvez as opiniões políticas divirjam radicalmente; talvez eles comam diferente; talvez um sonhe com crianças, e o outro, com andanças; talvez um queira amor livre e o outro a liberdade de amar uma pessoa só, em paz; talvez as famílias desaprovem; talvez alguém adoeça gravemente.

Não, isso não. Nosso filme é mais comédia do que drama, é mais ridículo do que trágico. Eu sou tão ridículo: um cara correndo de bicicleta, suado, em busca de dois lugares perfeitos para ver um musical com você. Eu nem sei se gosto de musicais, mas quero saber. Há tanto a saber!

Mas então você diz: putz, esqueci. Desculpa. Eu, na entrada da sala imensa, cercado por cartazes e velhas fotografias, me divirto com a coisa toda. Nosso filme é leveza. Penso em pintar o teu retrato e te levar pra passear de mãos dadas a noite inteira. Levitar.

Você diz que esqueceu e que não vem mais. Como assim, não vem mais? Desde quando saiu daqui? Eu te toco com os cinco sentidos, e cinco vezes te percebo aqui, ao meu lado.«

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