arte: loro verz

»Neste Natal não darei presente nenhum. Sinto muito, amigos. Não é nada pessoal.

Na verdade, minha família já vem praticando essa filosofia há alguns anos. Antes, colecionávamos lamentações sobre como era difícil comprar presente para fulano ou para sicrano (eu, por exemplo, nunca sei escolher muito bem o que dar), sobre como as coisas custam caro, sobre como aquele seria um Natal de “lembrancinhas”. Até que, passados vários ensaios, em um novembro qualquer finalmente sacramentamos: que tal um Natal sem presentes?

A proposta foi recebida com alívio. Todos, no fundo, pensávamos a mesma coisa. A única exceção formal à regra deu-se em favor das crianças. As crianças, especialmente as que acreditam ainda em Papai Noel, essas receberiam os mimos de sempre. Mas, subitamente, a cota de pacotes caíra de dez ou doze para dois ou três.

Hoje, lembro da correria pré-natal como o carinho e o distanciamento de quem revisita, na memória, perrengues antigos. É dezembro e meus amigos estão em plena febre mercantil. Vejo-os com simpatia – um tiquinho de compaixão. Presentes para quê? Estão estressados, infelizes e endividados. É esse o espírito do Natal?

Recordo de uma véspera em que eu e minha então namorada saímos para comprar 16 presentes de Natal. Dezesseis. As visitas a inúmeras lojas em inúmeros shoppings nos mais diversos endereços da cidade era enlouquecida e enlouquecedora. Bem intencionada, a pobre entrou no cheque especial. Ficava contrariada quando eu lhe dizia que, para mim, não queria nada. Não ouvia. É Natal, todo mundo merece um presente.

Mas o presente pode ser outro; pode ser tantos. Meus melhores presentes quem dá é uma amiga japa, que ainda escreve cartas. A mãe, que faz um jantar caprichado (e às vezes viola a regra e contrabandeia para debaixo do pinheiro uma nova camisa social, desnecessária). Os amigos, que chamam para uma cerveja e falam besteira a noite toda. No fim, rachamos a conta. Pra mim está bom. Quando insistem, peço algo que dividamos juntos: comida, bebida, um livro ou um filme sobre o qual podemos conversar depois.

Nesta semana, a sorte me perguntou o que eu queria de Natal. Eu falei, outra vez, como sempre, que não queria nada. Ou melhor: que viesse me visitar. Que viesse e ficasse por perto; ficasse tanto tempo quanto pudesse – até eu terminar meu livro, pelo menos, quem sabe?

Ela vem.

Precisa de algo mais?«

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