arte: loro verz

»Conversa de mesa de bar.

Estamos no Porto, Portugal. É primavera e o desconfinamento avança: já podemos, enfim, sentar à mesa em pequenos grupos sedentos. Pedimos dois copos, depois mais quatro. Emotivo, meu amigo confessa: não se adapta bem – ou melhor, adapta-se tão bem quanto possível, à vida longe de casa.

Está tudo bem. Repito. Para ser sincero, eu desconfio de quem se adapta bem demais, de quem se mistura muito rápido ou de forma muito homogênea. Aquela pessoa que depois de um ano não tem nem mais sotaque nem vestígio de raiz: é toda viço e folhagem. Pessoas muito à vontade no mundo me causam espanto.

Não ter sotaque é um fetiche estranho. 

O imigrante sempre tem saudade. Não é, claro, uma exclusividade dele. Todo mundo tem saudade de um passado idílico: assim eu, assim você, assim o Pedro, a Paula, o Fábio. Mas o imigrante tem um tipo particular de ausência. É uma saudade de primeiro amor. É uma febre, um paradoxo. O oposto da “saudade do que a gente não viveu”, é a vontade de viver pela primeira vez o que já foi atravessado. E atravessar-se novamente, com espanto, de velhos espinhos. Perder-se nos caminhos conhecidos. Espantar-se com o próprio jardim, a própria terra, as mãos da mãe, os abraços do pai, o cheiro da velha casa.

Assim a nossa saudade. A gente quer experimentar pela primeira vez tudo o que for completamente conhecido. Espantar-se com o conforto absoluto, como um bebê que no útero da mãe goza, dia após dia, a euforia de um mundo pequenino.

É normal ter essa saudade, suponho. Ela não vai embora não, Pedro.

Você me pergunta o que fazer. Voltar para o lugar que já não existe? Tentar? Desistir? Beber? Aprender o tango, o fado? O que?

O garçom, parado à beira da mesa, tudo observa, pensativo. Coça o queixo devagar, por baixo da máscara, e imagino que contrai os lábios. O mundo anda bem complicado, não é? Pois sim, desde sempre. Mas eu gosto de fazer fogueiras, fumar cigarros e olhar as nuvens, diz.

Eu gosto de escrever, ver filmes e caminhar.

O Pedro olha com espanto e dúvida, angustiado com as possibilidades de nunca encontrar aquilo que já é seu.«

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