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arte: loro verz

»Cena 1. “Aquarius”. No lindo filme de Kleber Mendonça Filho, a personagem de Sonia Braga discute com o neto de um empreiteiro rico e, com o dedo em riste, desnuda nosso paradoxo educacional. Já virou chavão dizer que o grande problema brasileiro é a falta de educação de seu povo, mas Clara inverte o senso comum: o problema não é a educação do povo pobre, mas sim do povo abastado, acostumado a passar por cima de tudo e de todos, diz. O jovem ri, nervoso. Está acostumado a ter o que quer. Eventualmente terá de passar por cima dela também.

Corta.

Cena 2. A vida imita a arte, que imita a vida. Em uma sala de aula de um colégio de elite, o professor colhe opiniões sobre a leitura do bimestre. Recomendou um livro de Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho. Entre os poucos que ao menos iniciaram a leitura da obra, críticas. É muito chata, muito blablablá. O professor, exausto de tanta bobagem, repreende o aluno –que, por sua vez, humilha o professor.

– Você não pode falar assim do nosso maior autor. Não porque tenha que concordar com um argumento de autoridade, mas simplesmente porque não leu nem metade do livro e, quando leu, não deve ter se dedicado muito a isso. O fato é: deve existir uma razão para um texto como esse ter sobrevivido por quase duzentos anos.

– Que se dane. Não gostei, é chato.

– Mas por quê?

– Chato. Blablablá, mimimi, um saco.

– Bem, se você acha… Já eu acho que se você não gosta do Machado de Assis o problema é certamente seu, e não do Machado de Assis.

– Eu tenho problema, é isso? É isso que você está falando? – levanta a voz e faz careta, a vítima.

–  Quero dizer que ele não perde nada se você não gostar dele, mas acho que você, eu, qualquer um que deixe esse livro de lado, perde, ou melhor, deixa de ganhar alguma coisa. Por isso é um clássico brasileiro – o professor, o carrasco, tenta atenuar, já pesando as consequências do debate.

– Cala a boca. Que bem esse Machado te fez, você, professor de escola? Meu pai é empresário, nunca leu essa merda.

A turma toma partido do menino, às gargalhadas. Consegue apoio surpreendentemente rápido: antes mesmo que se instale o conflito, tem um exército ao seu lado. Imitam os trejeitos do professor, que ajeita os óculos e os cabelos a cada cinco minutos. Treze tweets e quatro posts já comentam a discussão nas redes sociais – ninguém defende o coroa, cuja fama (mais a fama do que a conduta) é de linha duríssima. Em meio à bagunça, a representante de classe começa a organizar um abaixo-assinado anônimo na internet para ser enviado à coordenadora. Querem a substituição do professor ou, no mínimo, uma limitação das leituras bimestrais para algo razoável, diante dos compromissos que os alunos têm. Algo como, digamos, resumos de cinco páginas. O professor pensa na repercussão do caso, no problema que se cria. Sua. Recua. Bem, vamos encerrar a discussão. Vira de costas, suspira e começa a escrever na lousa: Memórias Póstumas de Brás Cubas. Resumo:

Corta.

Cena 3. Flashback. O professor lembra de seu próprio tempo de adolescência, quando era também aluno. Faz força para lembrar se os imbecis sempre existiram ou se começaram a surgir nalgum período histórico de que se lembre: a invasão do Vietnã? Woodstock? A popularização do neopentecostalismo? A ascensão da classe média? A internet?

Não, certamente já havia imbecis em sua classe, talvez até em igual número. Começa lentamente a lembrar dos rostos dos colegas mais igno-arrogantes, mas não recorda seus nomes. Não recorda nem um único nome, não tem jeito.

Eles estavam lá, tem certeza, mas não falavam muito. Ou melhor: não falavam. Ainda não estavam organizados.

Corta.

Cena 4. Volta ao presente: o professor na sua cama, em casa. Fuma um cigarro, ouve um disco surrado. Sorri melancólico. Os idiotas, pensa, sempre foram numerosos. Mas agora, ciberorganizados, ganharam voz, passaram a pressionar todas as instituições – a política, o direito, a escola – para que fossem reconhecidos, valorizados e temidos em sua idiotia. Organizaram-se e venceram a parada.

É claro que se pode ser sem educação independentemente da conta bancária. Mas é a grosseria dos mais ricos, dos mais cheios de oportunidades, que mais o incomoda, porque gratuita. 

A falta de educação é o fenômeno mais democrático do Brasil. De diferentes modos, está no rico que se julga o centro do mundo, está no pobre com dificuldades para ler e escrever. Diferentes educações, certamente, mas: tudo educação.

Corta.

Cena 5: o Brasil hoje. Na televisão, durante o período eleitoral, todos os candidatos falam da importância da educação. Alguém cita o slogan pátria educadora. As imagens são sempre de negros pobres sorrindo em salas de aula iluminadas. A educação muda o mundo, outro diz. Mas que educação, ele se pergunta. Que educação? «