arte: loro verz

»Ele está praguejando de novo. Desde que descobriu que é poeira, poeira de estrelas, esticou um arame entre a resignação e a revolta e nele bamboleia.

As Olimpíadas não ajudaram muito. Os atletas olímpicos são os verdadeiros olimpianos, pensa. Vivem noutra esfera. Não se incomoda muito com o sucesso dos atores da Globo, com as vozes dos programas de auditório, com os cliques dos youtubers da estação – nem mesmo com os autores-sensação na vitrine das livrarias ele se incomoda. Tudo poeira de estrelas, como ele. Mas os atletas olímpicos, mais novos do que ele, mais fortes do que ele e, principalmente, mais obstinados do que ele, involuntariamente desdenhavam de suas humildes, terrenas conquistas.

O que é o afago do chefe diante de um pódio, de uma medalha de ouro de meio quilo? O que é acordar cedo todos os dias, jamais perder um dia de trabalho, diante de uma década de treinamento para correr cem metros em dez segundos? O que é o seu suor perto daquele? Seu corpo perto daqueles? Sua vida?

Tudo poeira de estrelas, tenta se consolar, mas eles, o sol, e eu, um planetinha daqueles sem nome: série aleatória de números e letras.

Torcia melancolicamente pelos compatriotas, como quem torce pela justiça divina, mas, no fundo, queria que não existissem superatletas.

Admitia, no máximo, o boleiro habilidoso do condomínio. Porque poderia, ele mesmo, em suas fantasias, tornar-se o boleiro habilidoso do condomínio. Um Phelps, um Bolt é outra coisa. Nem que nascesse de novo, ele sabe. Nem em mil vidas.

Sente um misto de terror e fascínio quando a disputa começa. Somos todos humanos, mas os atletas… Os superatletas! De que fibra são feitos, de que matéria? Considerava-se, ele mesmo, meio atleta, pegando ônibus todos os dias, sustentado a família, suportando a pressão de todos os lados, incessante, enlouquecedora.

Na escola, em todas as provas todos recebiam medalhas. Na vida, a sua não veio. Roubaram-lhe todas, todas elas, até que desconfiasse que não houvesse, enfim, medalha alguma.

Então viu, com pesar, as Olimpíadas. Havia medalhas sim, na vida, mas só para eles. Deuses.

Eu lhe disse nunca é tarde. Eu lhe disse mexa-se. É preciso muita coragem para ser aquilo que se é; seja.

Sim, não há medalhas para todos, na vida. Mas há a vida, meu amigo. Há a vida.«