arte: loro verz

O amor é um jogo. O amor é um jogo de avanços e recuos. É uma dança lenta, em que se avança um passo para a frente, dois para o lado, meio para trás. E recomeça. E assim vai.

O amor vem e vai. Um telefonema, uma semana de geladeira, flores, um toque de mãos, três dias de expectativa e, de repente, o primeiro beijo na saída do bar. O amor é cego, o amor é surdo, o amor é chato; o amor é para quem sabe amar. Pássaro inquebrantável e arredio, assusta-se com um espirro, com um segundo de silêncio, com um olhar na direção errada. Meias palavras e bate asas. Ele vem. Ele passa. Ele não passa, mas aquieta.

O amor é tão complexo que não se esgota em nenhuma canção, em nenhum clássico, em nenhuma palavra. O amor não cabe em lugar algum: num soneto de Shakespeare não cabe. Numa sinfonia não cabe. Nem no coração o amor, se é amor, cabe.

O amor é um jogo desde sempre jogado. Como o xadrez, como o gamão. Que digam: pôquer. Blefado. Mas hoje, feito o xadrez, o gamão e o pôquer, aquele amor cheio de regras e de movimentos complicados está escanteado. Não é prático.

O amor, hoje, precisa atender com hora marcada. Se vier com um alarme de proximidade, tanto melhor. Programado com GPS, algoritmos e alertas sofisticados.

O amor vibra no seu bolso quando chega a hora de ser amado.

O amor é objeto de softwares variados. Amor, paixão e sexo num mesmo pacote: prático. Uma ilusão de amor, o amor como bilhete premiado. O tíquete dourado do Tinder, o popular aplicativo de encontros virtuais da atualidade. Quem sabe ali, escondido entre milhares de rostos retocados, estará ele, entocado?

Entocaram o amor no Tinder e que tais. Naquela profusão de rostos sedutores ele estaria à nossa espera, sorridente, convidativo, bem embalado.

Baixei. E então?

Prometeram-me o amor e não encontrei nada. Não havia amor algum. Nem, para ser sincero, paixão. Nem sexo. Havia apenas um deserto, como num jogo de espelhos circenses. Espelhos multiplicando muitas faces que no fim pertenciam à mesma criatura: um avatar descarnado.

Rapidamente me habituei ao ritmo do aplicativo: em menos de um segundo indicava quem eu queria, quem eu não queria, como num supermercado. Menos de um segundo. Pensei nas namoradas que tive, pensei no meu amor. Estivessem ali, naquela lista bizarra de compras, eu diria que “sim, hoje eu quero um quilo disto, três daquilo”? Eu diria que não?

Uma foto errada, luz inadequada; uma piscada na hora decisiva e adeus. Talvez o polegar fosse mais rápido que os olhos – que são mais rápidos que o coração. E: não. O amor se perderia. Assim, pelo Tinder, eu teria deixado passar algumas das melhores (e piores) experiências da minha vida.

O Tinder é o amor nos tempos do videogame, da realidade virtual, dos prêmios e troféus ao passar de fase. Muito além do velho flerte esportivo, é a evolução de um colecionismo falastrão anterior à internet. Democratiza o sedutor de quinta categoria, multiplica o amante bidimensional. Inventa um amor atrofiado, limitado a dedos indicadores.

Seu ícone é uma chama estilizada, mas fria ao toque. Um fogo que não queima.

Todas as cartas de amor são ridículas, ensinou o poeta; e o amor, em si, não pode ser menos do que ridículo.

Mas o Tinder não tem nenhuma poesia. Não chega a ser, portanto, nem ao menos ridículo.