arte: loro verz

»Foi preciso percorrer alguma estrada. É um clichê, mas, como todo clichê, tem algo de inevitável. Foi preciso viver: casar e descasar, engravidar e ser pai, plantar árvores e escrever livros, viajar, voltar, celebrar e lamentar os fatos da vida, apaixonar e desapaixonar, uma e outra vez, repetidamente, até aprender alguma coisa.

Enfim, foi preciso envelhecer.

Nem todo mundo aprende com a vida, mas quem está vivo e atento acaba entendendo, enfim, a grande lição. A gente só pode ser a gente mesmo. É óbvio, mas, até chegar à essência disso – e do que se é – quanto tempo é preciso. Quanta estrada sem nenhuma promessa, sem garantia de nada. Seguir e rezar. Sobretudo agradecer.

É quase 2020 e tive o mesmo sonho de novo. Não gosto muito deste sonho, especificamente, mas aceito. As coisas que não ficaram claras de dia quase nunca aclaram à noite – o segredo, então, é abdicar do sentido. Tanto o tempo desperto quanto a vida invisível do inconsciente estão fora do nosso controle. Acontecem.

Aceito que as coisas aconteçam – sonho, pesadelo, tudo, nada. Longe de casa, em território estranho, compro menos brigas comigo. A primeira tarefa do emigrante é a de fazer as pazes consigo.

Hoje despertei da mesma fantasia incômoda e não me aborreci. Disse, baixinho: eu sou o resultado disso aí. O resultado desse sim, desse não e desse talvez.  

As pessoas notam. No café, uma miúda pergunta como você chegou até aí? De certeza espera uma resposta grandiloquente, a receita de retiros, meditações, exercícios, leituras, tudo se acumulando de forma densa e exaustiva.  Eu, ao contrário, tudo despi: todos os acidentes chamei de destino, todo o destino chamei de acidente. Quando dei por mim, estava aqui – e nunca mais saí.

Ou seja, não acredito em nenhuma preparação especial para ser o que se é. Não acredito em pular ondinhas, em guardar sementes, em espalhar grãos de arroz, em vestir branco, em ajoelhar, em pedir. Nem sequer em planejar eu acredito.

A gente precisa passar por todos os clichês, precisa envelhecer, para bancar a escolha óbvia de ser o que se é.

Este é o meu presente de Natal, meu amor, e é o maior presente que posso oferecer. Dizer: este sou eu, e esta é você.«

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