arte: loro verz

Cada amor tem o seu tempo, e cada tempo tem o seu amor.

O Dia dos Namorados tornou-se um desafio ao amor. Um tsunami que ganha força em meio a ondas de selfies e declarações egocêntricas de paixão eterna; muito, muito barulho; imagens retocadas; memes; tiradas publicitárias; presentes caros demais.

Uma competição para ver quem ama mais e melhor, quem faz chorar, quem faz rir, quem faz tremer. Qual declaração dá mais audiência.

Nos filmes de “antigamente” a sensação era a de que o amante gritava lá do chão a sua declaração apaixonada. A mulher, do alto, se emocionava.

Assim, colocava-se tudo em perspectiva. Era o amor que subia às estrelas, enquanto o homem estava lá embaixo, resignado à sua insignificância, às vezes sob chuva. O homem, um animal. Mas o único animal que flerta com o infinito. (A mulher, ora, também não era naquele momento apenas mulher, apenas animal: era amor.)

Hoje gritam o amor do alto, do ponto mais alto que se possa alcançar. Competimos. Mirantes, helicópteros. Internet. Seis mil amigos: escutem-me. A multidão, e não mais o céu, a chuva, por testemunha. A multidão, que se lixa para você.

Então o amor, coitado, gritado e escarrado lá do alto, escorre para baixo, sempre abaixo, por vielas, ralos, desvãos. Perde-se em incontáveis ranhuras, em incontáveis rachaduras nos labirintos dos ouvidos de centenas de pessoas indiferentes. Divide-se em palavra, em sílaba, em letra, em nada. O amor, um barulhinho às vezes bom, às vezes inconveniente.

Amar é só outra forma de dizer “preste atenção em mim”.

Não sou saudosista (escrevi sobre isso, aliás, aqui). Não direi como era bom no meu tempo de moleque, em que o Dia dos Namorados era uma longa carta manuscrita, uma lágrima solitária, um botão de rosa. Às vezes, flores colhidas na rua.

Mas quando vejo o amor-ostentação dos amigos-de-facebook eu, envergonhado, lembro de um bilhete deixado por Mário Quintana. “Se tu me amas, ama-me baixinho / Não o grites de cima dos telhados / Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz a mim! / Se me queres, / enfim, / tem de ser bem devagarinho, Amada, / que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

O Dia dos Namorados não deveria ser grito e vaidade, competição de curtidas. Amor gosta de silêncio e cumplicidade. Gostaria de ter o seu próprio dia, e que seu dia não fosse conhecido por mais ninguém. Um dia único, daqueles dois apenas. Do casal apaixonado.

O amor gosta de silêncio e de carinho. É um pássaro arisco, como canta Carmen, e não está em clima de megafones. Ame, pois, e não terceirize isso aos amigos, colegas, desconhecidos. Ame e se responsabilize por isso sozinho.

Baixinho. Rouco, sem voz, num bilhete dobrado duas vezes e perfumado. Num gemido, num suspiro. Ame como quiser.

Só não me conte nada.

 

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