arte: loro verz

»Pouco depois de abandonar as aulas de piano, comecei a pensar em um próximo hobby. Existem hobbies e hobbies, e, quando me proponho a incorporar algo novo à rotina, trato a questão com alguma seriedade.

É que estudar piano não é um passatempo casual. Exige, além do compromisso das aulas, também a disposição para a prática diária. Aperfeiçoar ouvidos, músculos, tendões, olhos. Escutar e ver pianistas tocando, ler um bocado de história e de técnica (opcional, mas eu gostava), e, claro, dedicar-se interminavelmente ao dedilhado e à leitura de partituras.

Não deu. Em algum momento a gente precisa reconhecer aptidões e fracassos. Ao piano, eu era o retrato do fracasso.

Improvisei uns substitutos provisórios enquanto pensava no que poderia me ocupar aquele tanto, depois de encerrar minha breve carreira orquestral. Uns cursos de mixologia, gastronomia, psicologia, treino de corrida, preencheram o ócio.

Eventualmente comecei a fazer boxe, incentivado pela minha então companheira, que decidiu treinar comigo. Isso rendia, ao menos, uma boa anedota: o pianista que virou pugilista.

Machuquei a mão algumas vezes nos ringues e aos poucos desanimei do esporte, assim como desanimara do piano. Nos dois casos, a decepção veio quando percebi que, por mais que me esforçasse, não chegaria a ser “excelente” – nem mesmo chegaria a um “muito bom”.

Jamais chegaria à perfeição.

Mas qual o problema disso?

Pois. Reconheço: a doença da perfeição me assombrou por muito tempo. Era uma mania, uma sombra, uma compulsão sempre à espreita: ou era perfeito ou não era nada. E, como nunca fui perfeito em nada, nunca me permiti ser mais do que: nada.

Assim, permaneci em eterno estado de procura.

À exceção da literatura, cujo chamado era forte demais para ignorar, todas as outras coisas eu submeti à régua insensata da perfeição. Se não toco como Liszt, não presto para o piano. Se não bato como Muhammad Ali, não sirvo para o boxe. Se não danço como, se não cozinho como, se não interpreto como, se não, se não.

De não em não, a vida passa. A vida, tão generosa, que sempre caiu em minhas mãos como uma gota de chuva, uma penugem roubada ao vento, escorre por entre dedos obstinados pela perfeição.

Ainda bem que existe a terapia, que existe a literatura e a filosofia. Os amigos, os amores. Levou trinta anos, mas: já não me abalo com a imperfeição do meu passo, com as limitações dos meus ouvidos. Acontece. A verdade é que todo mundo está concentrado na própria busca, sofrendo à sua maneira. Até o pianista “perfeito”. Até o melhor boxeador de todos os tempos. Eles sofrem seus sofrimentos. Quem sabe queriam escrever como eu. Passar café e assar pão como eu. Essas bobagens que eu desvalorizo, é claro, que creio menores e ao alcance de qualquer um.

Todos estamos frustrados em alguma medida. Tudo bem. Seguimos. Penso se a natureza se preocupa com suas imperfeições – uma folha assimétrica, uma raiz supostamente torta, uma rocha partida. Claro que não. Sabe: é a soma das imperfeições, e não sua subtração, que torna tudo mais interessante.

Assim Deus, entediado, fez o humano. Deus, essa coisa perfeita e chata.

Prefiro revisitar minhas imperfeições e fracassos no amor, na música, nas finanças, na vida familiar, no corpo e na alma, na pele e nos pés. Tudo o que me torna homem.«

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