Versa?o 2

arte: loro verz

»Como um zumbi inconformado, 2016 vem e nos puxa o pé ainda molhado das sete ondinhas do Réveillon. Como em um filme B, acordamos com cara de susto. O fantasma do Réveillon passado levou Bauman. 

Terá ele revisto sua vida inteira no instante final, como num filme? Quanta coisa teria para ver! Bauman morreu aos 91 anos, percorreu o século 20 quase todo e assistiu de perto a brutalidade do ser humano. Fugiu de país em país até se estabelecer na Inglaterra, onde gestou sua obra, sua noção de liquidez do mundo pós-moderno, e se consagrou.

Penso nele e penso no mundo. A poesia do início do século passado dizia que o mundo era vasto, quase tão vasto quanto o coração. Mas a fibra ótica hoje diz que não. As conexões cada vez mais rápidas e móveis e sedutoras dizem que o mundo é pequeno, bem pequeno: cabe na sua tela de quatro polegadas. O coração também terá se apequenado, junto com o planeta inteiro?

Sim, terá. Quem lê poesia? Quem, incólume, vadeia? Em comum com Bauman tenho um certo ceticismo. No noticiário de sua morte o chamam de “pessimista“. Até hoje não sei o que “pessimista” significa. Dizer que a internet não nos torna pessoas melhores, por exemplo? Sublinhar perdas e riscos? Desembarcar do trem da euforia?

Certamente as razões para o pessimismo são, em Bauman, compreensíveis. Nazismo, revolução Russa, perseguições políticas, violência e conflito em seu encalço. E, então, a internet. Não a internet propriamente dita, mas sim as redes sociais, que hoje dominam a web. Redes em que bilhões de pessoas substituem, na visão do sociólogo, a ideia de comunidade pela de conexões passageiras e fúteis. Como disse em entrevista: “A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você. É possível adicionar e deletar amigos. Isso faz com que os indivíduos se sintam um pouco melhor, porque a solidão é a grande ameaça nesses tempos individualistas. Mas, nas redes, é tão fácil adicionar e deletar amigos que as habilidades sociais não são necessárias.” 

Eu lembrava de Bauman cada vez em que discutia com meus colegas mais entusiastas da internet, aqueles que não poupam elogios às maravilhas da interconexão. Já escrevi muitas vezes sobre isso. E dizia: gosto de redes sociais, não me entenda mal. Mas gostar não me impede de ser crítico. De constatar o 7 a 1 que os idiotas com ódio de tudo impõem sobre os que pensam em termos mais complexos – até contraditórios.

Claro que falava em causa própria. Um sem número de vezes, praticamente todas as semanas dos últimos três anos, fui testemunha desse mineiraço – ou melhor, facebookaço. Mas os entusiastas também falavam em causa própria: talvez atormentados pela própria solidão, queriam crer que mil likes pavimentariam a estrada do paraíso.

Sou, com Bauman, um pessimista no sentido de que acho que um macaco com um smartphone luxuoso é ainda um macaco, que um homem com um perfil popularíssimo é ainda um homem, e que macacos e homens são animais perigosos e imprevisíveis, que não se conhece nem define por cliques. E a birra é esta: se investirmos só nas ferramentas que estão nas mãos dos homens, e não na educação do homem em si, o homem acabará usando essas belas ferramentas para a destruição (de si próprios, às vezes, ou de reputações).

Educação. Sobre isso, lembro ainda que lia, para alunos de início de curso, um trecho de “Vida Líquida” em que Bauman afirma que o papel do educador, no século 21, é desafiar as certezas pré-concebidas de seus alunos. Desestabilizar, incomodar, mostrar que todo conhecimento que o aluno detém pode ser questionado, relativizado, refutado, às vezes.

Muitos nem ouviam: olhos grudados nos celulares. Mas um ou outro prestava atenção. Ruminava as ideias, entre o incômodo e o fascínio.

Não era um texto fácil. Não era muito compartilhável. Não importa, eu insistia.

Por isso precisamos de Bauman.«  

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