arte: loro verz

Gabi é frágil, mas parece não ter consciência disso. Mete-se na turba e abre espaço no samba. Não atura desaforo. Elétrica, nega a física dos corpos no tempo-espaço e tenta, sempre, estar em três lugares simultaneamente. Às vezes se frustra por ser só uma. É alegre e disfarça bem a timidez; animada, disputada pelos amigos, dança até o bar fechar. Seu celular nunca para de apitar. Tem o pé atrás com televisão. Nas horas vazias gosta de ler Drummond. No silêncio parece um filhotinho suspirando à janela. Não gosta de tomar decisões. Teme aquilo que não conhece. Dizem que sabe das coisas. Dizem até que sabe demais.

Pedro é um paradoxo. Cercado de amigos, é tímido. Bem sucedido, flerta com o fracasso. De alma selvagem, tem modos contidos. É despojado e sensível, um grande artista, um todo-coração. Diz não ter jeito com garotas, mas garotas o rodeiam. É gentil, educado, amigo, grande sujeito que pede desculpas demais. Afoito, abana as mãos quando fala de si. Fuma um cigarro atrás do outro. Jamais recusa um convite para sair. Gosta de cantos sujos, gosta do lado B. Cora quando bebe. Em algum canto do seu armário, um retrato seu envelhece enquanto ele madruga nas pistas rock ‘n roll.

Beatriz sempre veste calça jeans e é firme. Levanta a voz para falar de política, sexo e economia. Mas Beatriz tem uma doçura secreta. Às vezes parece se envergonhar disso, e se corrige desconcertada com a própria meiguice. Preza sua independência: não gosta que lhe apontem caminhos, não é boa ouvinte, enumera amantes entre taças de vinho em finas degustações. Não se envergonha. Compra brigas perdidas, mais por teimosia do que por convicção. Tem pressa de ser mais, e às vezes se atropela. A qualquer momento põe a mochila nas costas e desaparece. Nunca mais ouvi falar dela.

Fernando é zen. Você passa três minutos na companhia dele e o mundo desacelera. Ele sempre tem tempo para um café com os amigos, e no café gosta de falar sem afetação sobre os mais profundos mistérios da vida. Fernando quase foi monge budista, e conserva algo da doutrina do desapego. Encontrou seu próprio caminho – embora seja modesto demais para dizê-lo. Vive de mãos estendidas, mas não é do tipo bonzinho. É metódico e rigoroso. Abomina malandragens. Foi ambicioso e sacrificou a juventude no trabalho. Hoje equilibrou-se; só faz o que ama. Seletivo, cerca-se dos melhores. Chamam-no de mestre.

Paola nunca pulou muro, nunca trepou em árvore, nunca correu na rua. Passou seus dias entre livros, fechada em casa. As noites, aproveitou nos bares. É um mistério. Sempre foi a primeira em tudo o que fez; a escola, os concursos de beleza, as provas de matemática, as redações; a menina que não conheceu fracasso. Diverte-se com o próprio poder de sedução, que é também maldição: a primeira em todos os olhares de todos os passantes. As fantasias, as leituras, o sangue italiano, o corpo voluptuoso, o peito de beija-flor afoito com 1.200 batidas por minuto: Paola achava que iria morrer a qualquer hora, a toda hora. Enquanto a vida a ela se abria, infinita e generosa, ela suspirava por uma outra vida, fantasiosa.

Carlos é o avesso do que parece. Tem uma aura glacial que evita a aproximação de corpos não identificados. Dizem que é arrogante, mas é tímido apenas. E defende-se do mundo com grandes doses de sarcasmo. Sentiu-se a maior parte da vida invisível. Com os amigos, que conta nas falanges de um dedo, é afável, confidente. É também discreto, mas se doa ao que faz. Apaixona-se indevidamente (e apanha). Estende as mãos a quem não as pede (e apanha). Morreu de amor. Sofre com uma gastrite precoce. É, aliás, precoce de tudo; letras, sexo, casamento, paternidade, carreira. Correu porque temia nunca chegar lá, mas já maduro aprendeu a apreciar a caminhada. Gosta de dormir, mas quase não dorme. Acha o mundo muito complexo, o que diz ser bom. Não acredita em rankings nem em hashtags.

Escreve porque carrega o sentimento do mundo.

Escreve porque não sabe tocar piano.