arte: loro verz

»ELA disse que me buscaria no aeroporto. Eu disse imagina, não quero dar trabalho. No fim, como o meu voo chegava meio cedo, e como eu insistisse nessa mania de não dar trabalho aos outros, ela não foi. Ambos nos arrependemos, dias depois.

A chegada foi tranquila. O voo aterrissou no horário previsto no aeroporto de El Prat, em Barcelona, após uma hora e meia de voo desde a cidade do Porto, onde estabeleci meu ninho. As instruções não eram nem minuciosas nem vagas: tinham a medida exata. Tinham sido escritas por alguém que obviamente entendia dessa coisa de viajar pelo mundo. “Você vai descer no terminal dois, seguir a placa indicativa do trem, comprar um passe de 10 viagens (fuja do passe-turista), entrar no primeiro vagão que encontrar, descer na estação Clot, baldear para o metrô da linha vermelha e descer em La Sagrera. Eu te pego lá.”

Aceitei de pronto. Eu estava um pouco ansioso, confesso, porque era a minha primeira vez na cidade e estava sem internet no telefone – ou seja, não poderia ignorar as instruções e simplesmente recorrer ao Google Maps. Ainda assim, não houve minuto de dúvida. Segui as instruções e uns trinta minutos depois já estava recebendo um gostoso abraço em La Sagrera.

Na verdade, minutos antes, ao descer na estação final eu ainda tive um momento de consciência excessiva e liguei para a amiga dizendo que ela não precisava me buscar, que eu podia ir até a sua casa numa boa, sem crise. Havia visto um mapa na estação e percebido que ela estava a menos de cinco minutos de caminhada. Ademais, gostava da sensação de “ter de me virar”. Eis algo que sempre fiz muito bem. Ela, contudo, insistiu, e mal eu tinha saído para a rua já a vi saltitante e sorridente, com os olhinhos verdes apertados – insistindo em não usar óculos.

Uns dias depois, já na véspera da minha partida, ela confessou que se arrependera de não ter vencido a preguiça e ido me buscar no aeroporto. Havia dormido mal na noite anterior e estava cansada, por isso não conseguiu sair da cama cedo. Mas deveria tê-lo feito. Afinal, é tão gostoso ser recebido por alguém no aeroporto.

Pensei por um instante. Venci a síndrome da não-incomodação e concordei: É, você deveria ter me buscado no aeroporto. Quer dizer, não foi mau, do jeito que foi. As instruções foram precisas e eu gosto da sensação de chegar avulso a outro país, tendo de descobrir sozinho o bê-á-bá das coisas. Ao mesmo tempo, cheguei àquela idade maravilhosa em que não tenho ganas de provar que posso me virar sem ajuda, que sou totalmente independente. Besteira. Seria gostoso ser mimado com um carinho no desembarque. E tudo bem pedir ajuda aos amigos.

Pensando melhor, eu não tive muito disso, na vida. Em parte por culpa minha, do meu rígido senso de independência de tudo e de todos. Orgulho leonino. Mesmo na época em que namorava uma garota em outra cidade – ela no Rio, eu em São Paulo – e viajava constantemente, raras vezes fui recebido no aeroporto. Que pena. Lembro com carinho de quando minha família me recebeu com festa no aeroporto depois da minha primeira viagem internacional, décadas atrás.

Agora, pois, quero esses afagos todos. Os afagos presentes e os afagos sonegados. Quero buscar quem eu amo no aeroporto, na estação de trem, na rodoviária. E me deixar buscar, me deixar abraçar longamente.

É que descobri, enfim, que toda a independência, todo o orgulho, é menor do que um abraço.«

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