arte: loro verz

»Manter-se ocupado, às vezes impossivelmente ocupado, é uma arte em plena expansão. A demanda pela demanda é crescente: dê-me mais louça para lavar, mais livros para resenhar (não basta ler), mais pisos para varrer, mais paredes para pintar, mais reuniões, mais filmes, mais séries, mais notícias de mais cantos do planeta, mais perfis em mais redes sociais.

Qualquer coisa para esfregar, estragar e remendar.

Ocupar-se é uma arte em ascensão. Não apenas ler o livro e ver o filme, é preciso precisar ler, ter o dever de assistir (quem sabe para fazer uns posts espertos, quem sabe porque a peça ganhou uns prêmios e preciso estar por dentro disso também, ter assunto).

O artista da ocupação sabe que para se manter ocupado precisa se manter angustiado. Ocupar-se do planejamento da ocupação – e da terrível possibilidade de não dar conta de tanto dever-fazer.

Achei que o isolamento social arrasaria com o mercado das pessoas muito ocupadas, mas na verdade vejo o contrário: os muito ocupados estão ainda mais; os medianos passaram a demasiados. Até os desocupados, veja só, encontraram ocupação: ocupam-se de qualquer coisa, a qualquer hora.

A compulsão por redes sociais ou a panificação.

Não é um processo consciente. Ninguém, salvo os doentes de amor, simplesmente decide soterrar-se de afazeres. Apenas acontece, como se tudo ao redor conspirasse (e conspira). Eu mesmo, olhando à volta, de repente me vi muito ocupado. Primeiro sintoma: adiar os telefonemas à família. Confirmação: minha respiração ficou curta, mínima, afobada, embora a saúde pulmonar esteja mesmo perfeita.

Respiro como se o nariz estivesse também muito ocupado,  metendo-se onde não foi chamado. Pra quê? Por quê? Nem o pulmão tem tempo a perder.

É importante ter consciência das coisas, ainda que nos sintamos impotentes. Até a consciência da impotência é uma potência, nessas circunstâncias. Tenho me ocupado de dar aulas, ser pai, revisar livros, ler, namorar, fazer faxina, cozinhar, assar pães e bolos, fazer exercícios em casa, raspar paredes emboloradas, pensar em escrever, escrever, ver filmes, pensar em filmes, montar filmes, ler textos acadêmicos, escrever textos acadêmicos, fazer cursos de todo tipo, ser jornalista e sobretudo tentar controlar o rumo dos próximos oito minutos – desisti dos dias, desisti das horas.

No intervalo dos planos, ocupo-me de sonhar. Suspirar.

Minha vontade é dar quarenta passos para trás e tentar enxergar a floresta. Me perder mais uma vez nas questões insolúveis, morar na filosofia, apelar à metafísica, a pura metafísica dos cigarros: como é que eu cheguei até aqui?

A agulha já arranhava o vinil quando percebi que a música havia acabado. Ocupado, não ouvi nada.

A mesa já estava posta para o café da tarde. Estiquei a mão para os chocolates, como quem acorda de sonhos subaquáticos.«

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