arte: loro verz

»Não confirmaram a morte definitiva de Luzia, o crânio mais antigo do mais antigo ser humano das Américas. A segunda morte: a morte definitiva, a morte dos restos mortais pulverizados por um incêndio brutal.

Nunca confirmarão a morte de Luzia. Ela, que já era imortal em sua face  descarnada, agora é mítica. Passarão séculos antes que seja determinado o destino de Luzia. Mas eu sei o que aconteceu: Luzia caiu fora. Desistiu de nós todos e fugiu para Miami.

Sua voz fantasmagórica há de ecoar pelos corredores do Museu Nacional e além por muito tempo, mas ela mesma estará longe daqui. Já vinha matutando o plano há tempos. Aproveitou a cortina de fumaça e desapareceu.

Até que demorou um tempão. É que Luzia era casca grossa. A gente nem imagina pelo que ela já passou. Em onze mil anos viu de tudo. Já sofreu de tudo. Viveu tempos selvagens. Viveu intempéries. Foi abusada, espancada, esquartejada e soterrada; depois escavada, reconstituída e esquecida numa prateleira por décadas até alguém perceber o seu valor. Então, passou a ser exposta – parecia ser reconhecida, enfim.

Deixou-se ficar feliz por uns tempos, no auge do noticiário. Parecia que algo ia mudar. Luzia viu Lula, viu Dilma, viu Temer, depois viu todo mundo nas redes sociais falando de Lula, Dilma, Temer. Silenciosamente, na sala vazia, viu o Brasil moderno ensaiar seus voos de galinha. Ela viu tudo: desde antes do Descobrimento até a República, os massacres de índios, as negociatas e jeitinhos. Já viu tanta coisa que não precisava nem de olhos nem de ouvidos para antever a catástrofe. Luzia sabia.

Encheu-se, Luzia. De saco cheio, falava sozinha pelos corredores que estava a fim de cair fora. Não é que tivesse medo do fogo, medo da solidão de um museu vazio, medo dos gatunos que rondavam o acervo. Ela não aguentava mais o Brasil. Sobretudo não aguentava mais as discussões sobre o Brasil nas redes sociais; as pessoas cheias de autoridade com soluções para tudo, fascinadas por seus próprios comentários inteligentíssimos, fazendo campanhas alucinadas por candidatos fossilizados.

Mais um ano eleitoral, Luzia pensou, eu não aguento.

Fez as malas e partiu. Quem sabe um dia ela volta. Só que, antes, quer ver se o Brasil melhora. Nesta semana, viu o resultado do Ideb, leu notícias sobre recordes de homicídios. Foi a gota d’água. Estava cansada de conviver com fósseis e poeira.«

 

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