arte: loro verz

Finda a última página, a pequena Alice riu. Atirou sobre o sofá o surrado exemplar de Menino Maluquinho e, na sua inocência infantil, perguntou: pai, que livro eu posso ler agora?

A casa está abarrotada de livros. Primeiro os enfileirava na vertical, em ordem de tema e, dentro dos temas, alfabética – pelo sobrenome do autor, como aprendi de minha mãe, bibliotecária. Depois, contudo, e à medida que a coleção de livros crescia, descobri que caberiam mais exemplares se os combinasse numa intrincada combinação de eixos: vertical, horizontal, diagonal. Uma arquitetura delicada de acaso e reflexão, de encontro e desencontro. Como a própria vida.

Resulta portanto que Ziraldo se apóia em Shakespeare, Fernando Pessoa se irmana a Joseph Mitchell, Dostoievsky se escora em Borges e uma profusão de obras científicas sobre jornalismo, psicologia, filosofia e economia embaralha-se num caos estruturado. Em realidade não é uma coleção de livros, mas uma criação. No recôndito das prateleiras, no silêncio da estante, tenho quase certeza que se multiplicam por conta própria. Capitus e Quixotes engatam romances improváveis, e, no fim de semana, quando os desalojo para espanar o pó – mesmo os maiores clássicos eventualmente juntam pó –, espanto-me com títulos até então ali desconhecidos. De onde veio esta Divina Comédia?

–       Pai, que livro?

Retorno do devaneio. A estante é sempre um convite ao devaneio, e o devaneio, um jardim de caminhos que se bifurcam interminavelmente. Muitas vezes ela me perguntou o sentido da vida (ainda aos seis anos de idade descobriu, divertindo-se deliciosamente, que a questão desconcertava os adultos à volta: pai, por que a gente existe?). Mais de uma vez respondi: o sentido da vida é vivê-la da melhor maneira possível, filha. Ou, simplesmente: o sentido da vida é ser feliz. Expliquei ainda que não era um sentido reto, mas um caminho tortuoso e repleto de desvios – como esta estante, labirinto de traças e pequenos seres, reais ou imaginários, que pela madrugada se arrastam de capa a capa.

Lembrei-me de minhas leituras de pré-adolescência e dos anos de formação literária. Tudo muito eclético e de alta qualidade, abastecido por uma afetuosa bibliotecária particular. Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Fernando Pessoa, Shakespeare e que tais, até o ponto de decorar longas passagens. Um melancólico livro de cabeceira anunciava “Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada”. Na varanda eu repetia versos que até hoje carrego na estante desordenada da memória: “Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos, / te pareces al mundo en tu actitud de entrega”.

As leituras que, sem exagero, moldaram o meu caráter.

“O Mistress mine where are you roaming? / O stay and hear, your true love’s coming”.

Tornando-me insuportavelmente romântico, irremediavelmente idealista. Suspiroso. À espera de um encontro casual com a Primeira Mulher do Nunes, por quem vivo ainda hoje uma paixão platônica, permanentemente acesa.

Durante toda a vida, na melhor das intenções, me recomendaram livros. Não sabiam, é claro, que a leitura é uma atividade de risco. A hora da leitura é potencialmente a hora da morte, a hora do novo. Um encontro, e, necessariamente, uma despedida. A leitura é feita de partidas.

Não tenho dúvidas, hoje, de que teria me tornado outro homem se não houvesse lido Vinícius de Moraes aos 12 anos de idade, se não houvesse decorado os tais vinte poemas de amor do Neruda. Teria outra visão de mundo, outra pele, outra carapaça. Outra fibra. Se não me houvesse entranhado a desesperança de um Pessoa nem o romantismo perfeitamente simétrico de um Shakespeare.

Se houvesse lido, quem sabe, um manual do homem moderno – digamos, um desses textos contemporâneos onde se leria: a mulher não é isso, o amor não é isso, as flores murcham, pare de rolar pedras morro acima. Nada vai dar assim tão certo. E, claro, trocasse de canal durante a propaganda de Doriana.

Toda leitura é um risco, ler é precipitar-se sobre um abismo que também olha para você. Toca e molda o seu caráter. Torna-o mais ou menos gentil, mais ou menos cético, mais ou menos corajoso, mais ou menos cínico.

Ler é muito perigoso. E nunca trará a resposta, pequena, daquela dúvida que tinhas desde os seis anos de idade. Foi adulto que entendi que o sentido da vida é: adiante, sempre.

Eu não sei que livro dou para a minha filha ler.