arte: loro verz

»A cena é corriqueira: pessoas de todas as idades e gêneros cambaleiam sutilmente pela rua, o equilíbrio prejudicado pelos olhos atados ao celular. 

É corriqueira nas capitais, no litoral, no interior. É corriqueira no mundo. Na Polônia, o papa prega contra jovens vegetativos, que não saem do sofá. O que fazem no sofá? Esfregam-se contra a pequena janela pela qual monitoram a vida alheia.

Ver a vida alheia é o novo esporte mundial, popularizado por Zuckerbergs, Orkuts e Kriegers, os mestres das redes sociais. Umas Calipsos contemporâneas, ninfas que nos prometem de tudo, de tudo mesmo, até a imortalidade, para que jamais saiamos de suas mágicas ilhas.

Há muitas Calipsos mas poucos Ulisses no mundo: como ninguém é herói nesta breve história do nosso tempo, seguimos ouvindo os apelos das ninfas e nos afundando gostosamente no sofá da vida, apavorados apenas com a possibilidade de a bateria acabar.

Mas o que me intriga realmente é o seguinte: se estão todos esmiuçando a vida alheia, quem de fato está vivendo? Que vida estamos vendo, se as vidas todas estão acomodadas em largos sofás? Pensei um dia que havia umas afortunadas Kardashians vivendo intensamente; nós víamos a vida dos viventes de fato. Quando saí de lanterna em punho em busca dos vivos, contudo, não encontrei nada. Apenas mais celulares – mais novos, vistosos, potentes, maiores.

Descobri apenas pedaços, micropedaços de vida sendo tecida. O menino que ia à praia fotografar os pés na água para postar e voltar para casa. A garota que fazia trezentas fotos calculadamente casuais na beira da piscina sem nem reparar no que acontecia. Todos os micropedaços de todas as pessoas do mundo costurados em um sem número de vidas perfeitas – às vezes ridículas – que pelo sofá nos gostava caçoar ou cobiçar. Uma vida que só fazia sentido coletivamente: meus trinta minutos de felicidade com teus trinta com os trinta deles infinitamente até que formássemos uma vida inteira pixelada. 

Mas, individualmente, subjetivamente, nada. Uma esmagadora infinitude de momentos de alegria que não se encontrava em lugar algum, a não ser na multiplicação de telas, perfis, alegorias.

Francisco falou que não viemos ao mundo para vegetar, para passar a vida comodamente, para fazer da vida um sofá no qual adormecemos. Ao contrário, viemos para deixar uma marca. Eu concordo, é claro, e quem não concordaria?

Mas as almofadas são fofas e chove lá fora. Maria atualizou seu status. Pedro quer teclar. Um gato abobado caiu na privada. A marca (que marca?) pode esperar.

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