arte: loro verz

»Como bom filho de uma cidade deveras conservadora, a megaprovíncia de Curitiba, ouvi inúmeras vezes o velho adágio que diz que quem é jovem e não é de esquerda não tem coração, mas quem é adulto e continua de esquerda não tem cérebro.

Eu achava graça daquilo; ria com os ridentes. Adolescente, virgem de tudo, impressionado pelo mundo, eu não dava muita atenção à verdade das coisas – na época em que ainda falávamos em verdade das coisas. Era uma reação ingênua. O gracejo parecia esperto, apesar da metáfora rudimentar, e sob medida para impressionar audiências parvas em encontros aborrecidos.

Coração/cérebro. Supõe-se, é claro, que os jovens são impulsivos e emotivos. Como um Che Guevara preso à primeira juventude, não conseguem assistir com indiferença à exploração humana, ao sofrimento de seus compatriotas. Abraçam árvores e operários desassistidos, levantam bandeiras e falam alto, de cima dos tablados, conclamando à resistência. O jovem é um animal de ação-reação.

Os adultos, ao contrário, são seres cerebrais. São sábios, ponderados e calculistas. Olham para a turba juvenil e analisam o sentido daquilo – enquanto temem os efeitos concretos, patrimoniais, da baderna. Os adultos fazem contas, pagam boletos, vão trabalhar. Cuidam das próprias vidas para que, assim, todas as vidas magicamente cuidem de si próprias. Simultaneamente, pensam, como o casal que discute o noticiário da TV às oito horas da noite, e não pensam, atarefados com planilhas, códigos de barras, parafusos e resistências – no caso, dos chuveiros queimados.

Como todo clichê, este também deve ter um fundo de verdade, mas confesso que, hoje, essa verdade me escapa por entre os dedos. Certamente já a tive mais segura, encerrada na palma das mãos, no tempo em que as verdades eram palpáveis. Hoje, conversando com meus amigos, só posso pensar no contrário daquilo que me diziam.

Hoje penso que quem não é de esquerda, depois de maduro, envelheceu mal. Não de uma esquerda institucionalizada em partidos políticos ou cartilhas do século passado. Penso em um entendimento muito mais singelo – e essencial – da questão.

A esquerda é o coletivo e o solidário, a ideia de que só vamos avançar quando todos avançarem conosco, sem deixar ninguém mais para trás. A direita, individualidade, fragmentação, competição. Milionários que se dizem “self made” e gente que, como os adultos do provérbio do coração oposto ao cérebro, cuidam da própria vida, sem interesse para ir muito além. Afinal, como escreveu Adam Smith, o egoísmo de uns beneficia a todos.

Só recentemente – só depois de adulto – passei a questionar a tal máxima. Olho para os adultos firmes à direita e espanto-me. Como envelhecem mal aqueles que envelhecem sob a sombra sorrateira do individualismo, a crença em um self-made qualquer coisa, enquanto o mundo despedaça.

Como defender, hoje, a exclusão? Como compactuar com a desigualdade, dar as costas e negligenciar as maiorias de sujeitos tratados como minorias de direitos? Dizer que Jesus andaria armado, que a floresta vale mais se derrubada, que os pobres são pobres porque não trabalham, não poupam, não se esforçam?

Seduzidos por redes sociais e streamings, os jovens hoje talvez sejam seres mais de pensamento do que de ação. Talvez encontrem-se, também, mais à direita. Cheios de cérebro. Mas nós, os adultos, nós que olhamos para os lados há tanto tempo sem ver mudança alguma, nós que cruzamos com os desabrigados, os desempregados e subempregados, nós que cuidamos das nossas próprias vidas a vida inteira e ainda assim não vimos a vida melhorar porque sozinhos não damos conta de nada, nós temos de agir. Um gesto simples: dar as mãos.

Recalibrar nossa racionalidade alienada. Conectar cérebro e coração.«

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