arte: loro verz

»Já é janeiro e não sei mais por onde anda você. Revisito rabiscos em cadernos e cartas e mensagens em busca de pistas. Qual foi a última vez que nos vimos, quais foram os últimos olhares, toques, beijos? O que aquilo tudo prometia?

As memórias vou reconstituindo ao redor, pelas beiradas, como um gato que se aproxima em círculos. Ah, sim. Será que continua com as costas curvadas e a respiração curta? Seus dedos ainda são finos, suas mãos ainda balançam desastradamente no ar, como desparafusadas do corpo, esbarrando e destruindo outros corpos soltos? E os seus joelhos ainda dobram meio tortos, pesados dos fardos que carrega, roxos do amor que repetimos?

Talvez. De todas as coisas me esqueço, mas disto lembro bem: o sorriso e o gemido abafado. Um jeito próprio de reclamar das coisas, de manipular as situações a seu desfavor para que, desfavorecida, pudesse se regozijar. E, claro, vingar-se. Sofrer é tão bom. Não é não. Que difícil, ser assim.

Quero cuidar de você, posso? Pode, por favor. Mas como? Você chegou com a pata furada, atravessada por espinhos, e depois de recuperada pisou sobre todas as coisas ao redor, pisou e pulou e esmagou até que, de novo, a pata ferisse. Tudo se repete, sempre. A mão que afaga é a mesma que acena, de longe, da estação central.

É difícil, assim. Difícil ser a incerteza que se finge forte. Difícil estar ao alcance do peso das coisas que você carrega por aí. Eu queria carregar esse peso com você. Dividindo é tão mais leve.

Já é janeiro. A esta altura você deveria ter um plano, ou, na ausência de plano, deveria ter coragem. Não precisamos de muito mais do que isso.«

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