arte: loro verz

»O menino fez alguma asneira e a mãe agora o repreende, tomada de impaciência.

Ambos dão meia volta no vagão e voltam à rua. Passam por mim rapidamente, antes que as portas se fechem. Tudo o que ouço é a mãe dizer: você precisa pensar direito, meu filho. Pensar antes de fazer as coisas.

Eles somem no meio da multidão que vem em sentido oposto. O rapazinho, de uns oito anos de idade, imagino, parece ter esquecido alguma coisa em casa (o material escolar?). Agora terão de voltar e refazer todo o trajeto.

Assim que as portas fecham o menino volta-se para trás. Um instante só. A cara aflita contém o choro, e os seus olhos cruzam os meus.

No que será que, agora, o menino está a pensar?

Arrisco pensar e no pensamento eu sei. O menino sou eu. Desde pequenos ouvimos o mesmo mantra: é preciso pensar direito. Pensar antes de falar, pensar antes de agir. Pensar, se calhar, antes até de pensar.

Que mau conselho, mamãezinha querida. O dia é quente e o trem sai da estação. O pensamento ecoa de um lado ao outro, em mim, sem direção, tocando todos os pensamentos que, passados e repassados, exigem atenção.

Eu sempre pensei demais. 

Para onde vão todos os pensamentos que pensei? Para lugar nenhum, imagino. Continuam ali, dentro de mim, signos silenciosos esperando a faísca da minha atenção (de qualquer atenção) para saírem de seu sono enciclopédico, do seu plácido estado de dicionário. Uma faísca basta para que ganhem carne e músculo. Para que despertem e voltem a me esticar e dobrar, me brincar e fazer.

É assustador pensar que um pensamento não morre jamais. Uma vez imaginado, existe. Espera. 

Hoje sou tantos pensamentos. 

É preciso pensar bem, a mãe dizia, pensar bem antes de agir e de falar. Será que ela mesma fazia isso?

Eu já não sei – tenho medo até de pensar. Tenho medo de colocar no mundo mais essa criança vadia.

Pensar pode ser sua covardia.«

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