arte: loro verz

»Gosto de ouvir histórias de amor. Tanto quanto vivê-las. É que lendo, ouvindo, vendo o amor, eu aprendo sobre o que ele pode e o que ele não pode ser; imagino, cresço, experimento. Então a experiência vai ficando cada vez melhor. E os ouvidos, também. As pessoas que acham que o tempo do amor passou, que nunca mais vão amar, essas não estão sabendo escutar histórias de amor. Ensurdeceram.

Eu aprendi muito escutando cuidadosamente. A maioria das pessoas nunca escuta. Desde cedo aprendi a reconhecer os sintomas, graças à poesia, à música, ao cinema. Mesmo quando ninguém falava de amor, eu ouvia. Ou via, no jeito como a câmera se movia pelo corpo de Anna Karina.

Gosto do amor mansinho e do amor fulminante. Gosto de acordar na manhã do ducentésimo dia desde que a conheci e, ainda tonto de sono, a cabeça em maresia, dar-me conta de que estou apaixonado. Também o contrário: o dia em que entrei na sala de aula e, fulminado por um relâmpago, reconheci naquela desconhecida os traços da paixão. Ou a noite em que, assim que o copo pousou na mesa de bar (e ela sorriu), tive certeza de que um dia atravessaríamos praias e oceanos para fugir daquela cidade bruta em busca de algo fresco e novo.

Gosto de sentar no bar, quietinho, só para ouvir pedaços de histórias, colar fragmentos no meu caderninho até formar um mapa particular. Ficar sabendo de um encontro, de um desencontro, de certezas e de dúvidas, fogo e cinzas. Nessas horas, se eu tiver bastante tempo, bastante atenção, sigo as setas até o núcleo brilhante além de convicções políticas, futebolísticas, monetárias, místicas e de ocasião. Se existe algo maior, é o amor.

Se existe algo maior, é aquilo que flutua no bar perto da meia noite, quando a mulher está pronta para ir embora, exausta, mas hesita quando um drink aparece em sua mesa. Enfim percebe o homem que sonhava no canto do salão.

Ela fica, eles ficam, conversam sem parar – quem sabe mais uma história de amor.

Gosto de olhar o jeito como ele olha a mão dela, sem tocá-la, e de como tenta decifrar suas tatuagens. Fala besteiras. Ela ri, ajeita a franjinha repicada e conta a sua história. Diz que vai ensiná-lo a yoga enquanto ele memoriza seu rosto em esboços por colorir.

Ambos aguardam o florescer das expectativas.

No bar, no bairro, no mundo, o amor flutua e faz a sua mágica.

Imagino o dia em que ela lhe estenderá a mão e ele perceberá, enfim, o que a tatuagem queria dizer.«

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