»Na Biblioteca Pública do Paraná havia uma estante repleta de seus livros. Estávamos em 1996, e comecei pelo mais falado, Cem Anos de Solidão. Devorei as páginas com estranhamento. Isso existe?, eu me perguntava. Não Macondo e seus fantásticos personagens, mas aquele gênero até então desconhecido pra mim.
Precisei desenhar uma árvore genealógica para acompanhar direito a história. Não me aborrecia com isso; fazia sentido que me perdesse no meio: afinal, não eram todos os Buendía a mesma raça condenada? Encantei-me com aquela família desgraçada, da qual forçosamente passei a fazer parte.

Ao mesmo tempo, gostava da construção franca e límpida das frases – depois descobri sua militância jornalística e isso fez mais sentido. Ele “escrevia fácil” – o suficiente para que eu aos 15 anos de idade mergulhasse sem bóias nem cilindros nos espantos daquele universo de realismo mágico.

Fiz o caminho errado, e todos me diziam: fizeste o caminho errado. Comecei lendo a obra máxima do autor, e depois disso todo o resto – diziam – seria menos interessante. Dito e desfeito. Continuei a me encantar, livro após livro. Foram 12 ao todo. Só agora, quando o autor finge morrer para nos envolver como o vento, me dei conta de que Gabo foi o autor que mais li na vida.

Algumas obras eram curtíssimas, devoradas em poucas horas de biblioteca, como Crônica de Uma Morte Anunciada. Outras exigiam um pouco mais de tempo, como O Outono do Patriarca ou Ninguém Escreve ao Coronel. Não lembro de nenhuma, contudo, que não me tenha assombrado.

Se hoje sou escritor, metade disso é culpa de Gabo, metade é culpa de minha incapacidade de me exprimir por qualquer outro meio que não seja a palavra. Fracassei à flauta, ao saxofone, ao piano, aos pincéis. Restaram-me as letras – ou o silêncio. O mundo me sensibiliza sem tréguas com seus mil tentáculos. Escrevo porque não sei tocar piano. Escrevo para não enlouquecer.

Gabo integra a tríade dos escritores que me estragaram, ao lado de Vinícius e Neruda. Li-os todos muito jovem e em demasia. Ainda não tinha defesas para o mundo. Acreditei que os sintomas do amor eram precisamente os mesmos do cólera, acreditei amar com grande liberdade dentro da eternidade e a cada instante, acreditei que a palavra era uma asa do silêncio e que o fogo tinha metade de frio. Numa série de fabulações incompatíveis com mulheres de faca e osso, patrões de cimento e tijolo, trânsito incessante de pneus e buzinas, acreditei.

Quem sabe eu seria mais feliz sem nada de prosa nem nada de poesia. Sem grandes inquietações metafísicas, sem nada maior do que as contas do mês. Viver na pele de apenas uma pessoa. O mundo, quando estreito, é mais cheio de alegria. Mas, como Manoel de Barros, que descobri mais adulto, não aguentei ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.

Perdoai. Mas eu preciso ser Outros.

Aos 16 anos cheguei mesmo a escrever um conto profundamente marcado pela prosa do colombiano. Contava a história de um homem – um médico de plantas – que flutuava alheio à gravidade.

Não lembro o título do conto. Nunca dominei a arte dos títulos. Os de Gabo me encantavam. A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e Sua Avó Desalmada. A lombada já gasta do livro não se destacava em meio a tantas outras obras na estante da biblioteca. Era uma lombada feia, desbotada, descolada, amassada. Mas cheia de palavras, palavras pungentes, prontas para me nocautear. Parei diante do livro, confuso. Como resistir?

Outro: Relato de un náufrago que estuvo diez días la deriva en una balsa sin comer ni beber, que fue proclamado héroe de la patria, besado por las reinas de la belleza y hecho rico por la publicidad, y luego aborrecido por el gobierno y olvidado para siempre.
Agora eu penso que título Gabo daria ao romance de sua vida. Viver para Contar não basta.

A sua vida merece um título tão fantástico quanto aqueles que deu, generosamente, às vidas de seus personagens.

Você arruinou minhas chances de ser feliz, Gabo, dando voz à multidão em mim. Criando mundo após mundo após mundo após mundo – e enfim mostrando que o meu mundo, de padaria, escola, casa e amigos, era pequeno demais. Preferi viver entre os teus, Gabo, com senhores de asas enormes e gerações fadadas à solidão. Com vastas selvas e diáfanos luares para se perder para se encontrar para sonhar.

Obrigado.

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