arte: loro verz

No começo ele curtia tudo o que ela postava: #partiu gastronomia, pílulas de Clarice Lispector, comentários sobre o clima, qualquer sacada.

Fotos de comida, de unhas recém-pintadas; ela com as amigas na balada.

Havia dez dias que avistara a moça na faculdade. Jovem, com seus 22 anos ou quase, um tanto mais baixa do que ele, cabelo castanho claro, pele branca que se irritava ao toque. Magra, mãos pequenas menores do que a chuva, unhas francesinhas, seios pequenos, olhos protegidos por grandes aros. Parecia – só parecia – tímida.

Fulminado por uma atração repentina, passou a segui-la. Descobriu que cursava gastronomia. Levantou o nome dos professores, centros acadêmicos, eventos da área. Vasculhou o Facebook até encontrá-la. Bingo: ela havia confirmado participação num evento de degustação de vinhos.

Na foto de perfil, abraçava um gato e sorria. Era a razão da pele marcada? Derreteu-se. Enfim descobriu o nome dela. Bia.

Vinte e três amigos em comum, mas nenhum de grande valia para aproximá-los. Nenhuma menção a namorado. Achou bom. Ousou.

Segundos depois, ela aceitou o pedido de amizade. Segundos. Ele sorriu, era mais fácil se aproximar pela internet do que declarar-se em plena faculdade. (Até porque os colegas da engenharia não perdoavam a sua falta de jeito com meninas.)

No começo ele curtia tudo o que Bia postava.

Ela reparou, claro, e foi conferir quem era o cara. Achou interessante seu sobrenome austríaco ou alemão, gostou de sabê-lo da engenharia, sorriu com algumas fotos desajeitadas.

Então, num dia como outro qualquer, ele começou a publicar comentários nas postagens dela. De leve, inicialmente, como quem caminha sobre gelo fino. Passo a passo, sílaba por sílaba, evitando temas polêmicos. Apenas concordava. “Clarisse é demais”, ele escrevia, quando Bia alardeava citações duvidosas de sua “escritora favorita”.

De início, o silêncio desanimador. Depois, um silêncio prenhe de fantasias: em uma semana ela estava curtindo todos os comentários dele (sem, contudo, respondê-los).

Depois de vinte ou quarenta curtidas, ela resolveu retribuir aquela atenção desmedida clicando sobre uma foto dele. Curtiu uma antiga foto de perfil.

Bastou isso para que o menino explodisse. [Havia lido uma pesquisa em que comparavam o prazer de uma curtida ao sexo. Era ridícula, mas o evento fora o mais próximo de um orgasmo que experimentara nos últimos vários meses.] Recobrou a coragem.

Mais alguns dias e já conversavam por chat. Trocavam imagens divertidas, memes, bobagens.

Logo teve a grande ideia e resolveu criar um evento: “Primeiro encontro com a Bia”. Ela confirmou presença – e foi.

O tempo passou, engrenaram. Começaram a namorar. Discutiram algumas vezes: sobre mudar o status de relacionamento, sobre curtidas alheias, sobre o que um ou o outro compartilhava.

O tempo passou, desengrenaram. Começaram a se afastar. A primeira pista foram as curtidas, que escasseavam. Ele já não se interessava por #partiu gastronomia, pílula de Clarice Lispector, comentário sobre o clima. Nem por fotos de comida, de unhas recém-pintadas; ela com as amigas na balada.

Ela não se esforçava por comentar nada. E já saía com gente de outras redes, entediada.

“Como disse Clarice, ‘Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa’”, ele postou, publicamente, junto com a foto de um gatinho consternado. #prontofalei

Ela curtiu. Nunca mais se falaram.