arte: loro verz

»A frase é atribuída a um dos mais conhecidos compositores brasileiros, o maestro Tom Jobim. Ele, que se dividia entre apartamentos em Nova York e no Rio de Janeiro, era frequentemente incitado a comparar as duas experiências de moradia. Um dia, saiu-se com esta: viver nos Estados Unidos é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom.

Não deu maiores explicações.

Hoje, depois de um ano e meio fora do Brasil, entendo perfeitamente o que quis dizer.

Europa é bom, mas é ruim. Brasil é ruim, mas é bom.

Viver na Europa é bom porque é seguro, limpo, razoavelmente organizado (previsível, confiável). As pessoas te tratam com uma certa distância respeitosa – ou desinteressada. Cada um na sua. De modo geral a sensação é de uma vida meio pacata, sem sobressaltos, sem assombro. Deve ser a almejada qualidade de vida, um conjunto de confortos que passam por transporte e ensino públicos, segurança e paz de espírito. Tudo é menor, tudo é mais próximo: em um mesmo dia é possível trabalhar, fazer mercado, tomar uma cerveja, flanar por monumentos e obras de arte, ler um livro.

Tudo isso é bom. Mas é ruim. Questão de perspectiva. Europa também é ruim porque é distante e fria, porque as pessoas não interagem tão facilmente, porque a suposta respeitabilidade emperra a fluidez.

Facilmente a tranquilidade vira monotonia, e o respeito, antipatia.

Na condição de imigrante, qualquer lugar é assim. Sejam os Estados Unidos do Tom, seja a Europa onde estou, seja o  Japão em que amigas trabalharam até a exaustão. Qualquer estrangeiro é estrangeiro, qualquer lugar distante mantém-se, por muito tempo, estranho aos nossos sentimentos mais profundos, à nossa casa.

E o clima, meu Deus, o clima. Começa o outono. Como chove, como esfria.

Já o Brasil é ruim. Todo mundo sabe disso. É ruim o trânsito das grandes cidades, a sensação justa e injusta de insegurança. A poluição e o caos. O esforço constante para se locomover, para fazer alguma coisa. É ruim porque governantes ruins falam e praticam barbaridades até o ponto em que as barbaridades não escandalizam mais ninguém. É ruim porque o amanhã é totalmente imprevisível. Porque até o passado é imprevisível. Porque frequentemente, como povo, nos apaixonamos loucamente pela ignorância e pela barbárie.

Mas é bom. Como é bom. É uma delícia o clima tropical, a abundância de recursos naturais, a feira lotada de frutas e verduras mais coloridas e viçosas que as tristes frutas européias. A comida em geral é boa demais. A água é boa demais.

O Brasil também é bom porque fazemos amigos mais facilmente. E namoramos mais, com mais chamego, mais pele. Porque é mais corpo e mais sol, mais flexibilidade, mais tudo bem e mais jeito de resolver o que parecia insolúvel. A gente aprende desde cedo a se virar, em meio a tanto obstáculo, a tanta dificuldade, e esse aprendizado amolece todas as coisas – até a língua portuguesa, no Brasil, é mais macia.

Nenhum lugar é bom-bom (mas suspeito que lugares ruins-ruins possam existir). O supremo bem a gente cultiva dentro da gente, ou então procura lá no céu, metafísico. A Europa não é o céu. O Brasil não é o céu. Por isso é tão difícil decidir, por isso é tão importante viver e descobrir, experimentar e repetir. Ou cansar. Mudar.

Eu saí do Brasil para estudar fora por um tempo; saí cansado, farto daquele permanente estado de incerteza e ansiedade.

Mas que saudade.«

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