arte: loro verz

»Eu tenho um amigo que ama dinheiro. Quer dizer, colocada assim a coisa soa um bocado simplista. Acho que a maior parte das pessoas ama dinheiro – embora amar seja um verbo complicado de aplicar até mesmo a pessoas, que dirá a mercadorias e, dentre todas as mercadorias possíveis, à mais efêmera de todas, o dinheiro.

Ainda assim, é irresistível constatar: eu tenho um amigo que ama dinheiro.

Meu amigo gosta de contar dinheiro, de falar de dinheiro, de ganhar, de gastar, de olhar, de cheirar, de escutar o tilintar metálico e o discreto atrito do papel moeda, de tocar, acariciar, afagar, dobrar e desdobrar, esticar as notas bem esticadinhas, abanar-se com elas, suspirar secretamente com o dinheiro, para o dinheiro, pelo dinheiro. Cometer confidências que aos nossos ouvidos jamais seriam ditas. O dinheiro sabe, ele diz. O dinheiro é bom.

Sim, toda a gente gosta de dinheiro – precisa de dinheiro. Não seria exagero dizer que a vida é hoje configurada à volta do dinheiro, o sol que ilumina ou obscurece todas as coisas. A estrela supermassiva que atrai a si todos os corpos.

Mas é tudo questão de medida, de perspectiva. Passo por um cartaz em frente a uma lotérica em Portugal. Anuncia: “Euromilhões acumulada, 220 milhões de euros”. Faço as contas de cabeça. 220 milhões de euros são quantos reais? Quase um bilhão e meio? É desconcertante. Quase um bilhão e meio de reais de prêmio na loteria, ao alcance democrático de qualquer aposta de dois euros.

É inevitável pensar em todas as coisas que poderíamos fazer com esse valor, ou mesmo com um décimo, um milésimo dele. Sair das engrenagens do trabalho exaustivo. Ajudar muita gente querida…

Para a minha surpresa, não consigo avançar muito na fantasia. Não consigo nem sequer me interessar seriamente pelo tema.

O desejo é um rochedo muito misterioso. 

***

Acontece que nos últimos tempos a paixão do meu amigo pelo dinheiro começou a se estender às pessoas que têm dinheiro.

Sorrateiramente o argumento se foi infiltrando em nossas conversas. Na avaliação da política e do mundo, dos relacionamentos humanos, da beleza, da arte, do meio ambiente, a opinião dos ricos passou a ter primazia. Um deboche ressentido, como quem diz “certo está você, que não tem nem um carro, não é mesmo? O bilionário deve estar muito errado mesmo”.

Perdi as forças para argumentar. Quanto vale uma opinião, uma ideia, uma saudade? Quanto vale a sanidade?

As conversas escassearam, a relação se foi desgastando. Tudo o que o dinheiro toca (por tempo demais, com força demais), empobrece. 

O dinheiro é bom colega, aprendi, desses que é agradável termos por perto durante as festas, encontrinhos casuais, happy hours. Não mais. É bom colega, mas péssimo mestre.«

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