arte: loro verz

»É raro que eu tenha a ousadia de dizer que sou bom em alguma coisa. Qualquer coisa. Afinal, é preciso ter coragem para anunciar um talento, sem sobressalto nem receio, sem pena nem deboche.

Tenho melhorado nisso, contudo. Quer dizer, fazer as pazes com o que há de melhor em você é um processo tão custoso, talvez, quanto fazer as pazes com as sombras.

Ser bom sem assombro, ser excelente sem subterfúgios. 

Sempre me foi simples falar dos defeitos, confessar pequenos pecados. Não careço de muita intimidade para revelar que minha memória não é boa. Para pôr a nu minha dificuldade de concentração. Para, enfim, agitar no ar a poeira cinzenta de minhas falhas: não acerto as direções, perco-me com frequência, sacrifico-me à toa, sou vaidoso, luxurioso, orgulhoso, desatento, confuso, hesitante, incerto.

Isso toda a gente percebe, ou, se não percebe, pode ouvir de mim mesmo em qualquer papo de bar.

Mas curiosamente é preciso ter muita intimidade, uma intimidade de irmãos em armas, de amores e parceiros de caminhada, para que eu admita as minhas qualidades. A confissão dos pecados atiro a qualquer padre em qualquer paróquia. A confissão das virtudes, reservo aos íntimos. Será que todos são assim? Sei que não, mas ainda assim me pergunto (confuso, hesitante, incerto). Será?

Por exemplo: eu sei que escrevo bem. É um fato – uma dedução simples que, na minha cabeça, está bem resolvida. Mas todas as vezes que ouso enunciar isso, com a naturalidade de quem diz que ama chocolates ou que certa bebida definitivamente não lhe cai bem, sou repreendido. Como é metido etc. Você se acha etc. Que arrogância etc. Ou colho risadas tensas, como se a pessoa diante de mim não soubesse reagir àquele comentário.

(Quando alguém fala mal de si mesmo, a tendência é que o outro embarque na onda e liste seus próprios problemas. Quando alguém fala bem de si, contudo, a pessoa desconcerta.)

Eu não percebo muito bem por quê. Sei que escrevo bem, faço isso desde muito cedo, e já li mais livros do que a maioria das pessoas que conheço. Em sendo uma questão de prática (ler, escrever, ler, escrever), não vejo mistério. É uma constatação banal, que não me torna nem melhor nem pior, nem especial nem especioso. São habilidades que podem ser adquiridas – e perdidas também – no decurso da vida. Pergunte ao melhor pianista o que aconteceria se ele deixasse de praticar por um ano ou dois.

A lista das coisas que não sei fazer é infinita, mas algumas eu sei. E, dentre as que sei, outras poucas eu domino. É assim para todos, para você e pra mim, e no entanto sempre alguém se espanta com a ousadia de falar sobre isso. Um estranho tabu.

No entanto admiramos o artista, empresário ou atleta que, longe de nós, afirma sua excelência. Eles, no Olimpo, podem. Só quando próxima demais a virtude incomoda. É mais fácil amar na penumbra.

Em tempos de barbárie, o amor hesita.

Insisto. A maior parte das respostas ainda reage mal (e pensa que o ataque é a melhor defesa), mas não importa. Com o tempo, e com sorte, a gente encontra novas sintonias. Parcerias.

Talvez essa seja uma boa forma de selecionar os melhores amigos dentre os amigos, os melhores amores dentre os amores. Por a nu não apenas defeitos, mas qualidades. Observar.

Gosto de caminhar ao lado dos melhores, dos mais perfeitamente imperfeitos amigos, cheios de saberes e de qualidades.

Avançamos. Os talentos, somados, deságuam em alguma coisa maior, muito maior do que saber cozinhar, pintar ou escrever. Por isso vamos de mãos dadas.«

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