arte: loro verz

»Eu leio um poema por dia. Ou tento. Não é difícil, e os benefícios são notáveis.

Um dia acordo e já é quase Natal. As lojas amanhecem rajadas de verde e vermelho. Talvez eu não tenha lido um poema, ontem, em voz baixa, lentamente, no ritmo que o poema pede para ser lido, até que se estranhe a palavra. Até que se entranhe a palavra, como alguém que bate à porta no meio da noite e pede abrigo. Entra.

Então acordo inquieto.

Não é raro que eu estranhe uma palavra qualquer. Escrevi “Áries” e achei o desenho das letras e sons a coisa mais estranha do mundo. Estranho sobretudo o banal. Banal, aliás, é uma palavra peculiar. Banal, banhar, embarcação.

Era uma embarcação banal, atravessando sonâmbulos na cidade.  

Saio de casa tateando os bolsos para ver se esqueci algo, mas só esqueço do que nunca esteve ausente. As minhas mãos, o meu amor. Perdido em pensamentos, procuro o que me sobra. Onde está a poesia? Às vezes passo o dia inquieto, vejo metafísica no feijão que borbulha, fico existencial da sopa à sobremesa.

Arrasto as longas asas do desejo pelo corredor, indo e voltando, sem saber onde focar. Nas ruas as pessoas vêm e vão, falando de vacina e eleições.

A gente se acostuma, mas não devia. Quando se vê, já é Natal. Escutei um poema assim antes de dormir. No dia seguinte acordei sobressaltado. Peguei Adélia Prado, lembrei de meu encontro com ela, na adolescência, em um auditório meio vazio. Mas a presença daquela mulher! Eu queria ter um livro para apanhar seu autógrafo, mas não tinha dinheiro. Ela assinou o meu esfarrapado caderno de poesia. Vinte anos depois, recito Adélia e reencontro aquele menino e suspiro.

Ninguém fala da importância de ler um poema por dia. Particularmente, acho tão terapêutico quanto sementes de chia, pilates e aspirina. Para encontros e para reencontros, aos amigos, aos estranhos, receito poesia.

Recito poesia. Não para dar sentido à vida, mas para um descanso de tanta necessidade, tanta asma, sofreguidão.

Escuta, amiga, nada realmente se parte. Escuta, amigo, nenhum dia é em vão. Nenhum verso é inútil. Nunca se perde algo de bom

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