arte: loro verz

»Eu achava que eu achava Carnaval um saco. Eu achava que achava que não gostava de Carnaval. Uma festa muito aborrecida. Uma esbórnia sem sentido, uma chateação sem fim de programação monotemática na televisão, uma usina de fofocas bobas sobre quem havia pegado quem no entra e sai dos camarotes vip.

Sobre o trânsito parado, as interdições nas ruas, a urina e o lixo despejados pelos foliões nas ruas, nem havia muito o que falar, já que, na Curitiba em que fui criado, verdadeiro túmulo do samba, não havia bloquinho. Não havia Carnaval de rua.

Não havia Carnaval de rua. Do que eu não gostava, então? Eu não gostava, hoje percebo, de alguma coisa que as pessoas chamavam, no noticiário, de Carnaval. 

Neste ano, pela primeira vez, resolvi pular em alguns bloquinhos de rua de São Paulo. O que vi não poderia estar mais distante dos tweets dos boçais. Eu vi um Carnaval real, feliz, subversivo em sua própria felicidade, de gente de todas as cores, tamanhos e rendas dançando alegremente. Certamente haveria, entre nós, os idiotas, mas onde não os há? Desconheço refúgios contra a idiotia.

No entanto, não os vi. Passei o Carnaval inteiro na rua. No máximo, um esbarrão suado. Vi dois ou três indivíduos fazendo xixi na rua. Não digo que esta é a realidade da festa nem que seja a regra, mas é o que vivi. Bloquinhos pequenos (prefiro) de gente despreocupada e, sim, civilizada – democrática na convivência da festa. Morador de rua, cadeirante, criança, velho, careta, bêbado, coxinha e mortadela.

Eu achava que achava que não gostava de Carnaval. Mentira. Eu não gostava é de Carnaval na TV, ou melhor, de desfile de escola de samba na Sapucaí. Desfile de escola de samba até hoje acho uma coisa enjoativa, enfadonha, artificial. Carnaval fabricado, aperfeiçoado o ano inteiro em barracão. Carnaval impecável.

Eu gosto de Carnaval. Mas, quando falo de Carnaval, falo de rua. De gente na rua, de música, alegria e resistência.

Por mais que nos queiram cabisbaixos, vamos dançar.«

_____________________________________________

Chegou até aqui? Aproveite e siga Males Crônicos no Facebook.

Facebook do autor.

Twitter do autor.

_____________________________________________