arte: loro verz

»Sempre amei conhecer coisas, ampliar, descortinar, descobrir. Talvez por isso tenha enveredado pelo jornalismo e pela literatura, pela docência e pela emigração. No fundo é uma vontade de saber mais.

No fundo é também uma vontade de esquecer, de saber menos para abrir espaço ao desconhecido. Como naquela história do professor que visita o velho monge budista para ter uma lição sobre o que é o zen. Cultíssimo, o acadêmico faz mil observações sobre a vida, a espiritualidade e, enfim, sobre o chá que o monge prepara à sua frente. O monge apenas sorri e serve o chá.

E serve, e serve, e serve a sorrir, em silêncio, até que a xícara, sem um milímetro de espaço vazio, começa a transbordar. E o monge continua a derramar o chá, para desespero do professor, que salta da cadeira aos gritos de “pare, está louco?” enquanto a bebida se espalha pela mesa.

Então o monge diz, enfim: como vou falar sobre o zen se você, assim como esta xícara, está com a mente totalmente preenchida?

Os espaços vazios – de produtividade, de ideias, de tarefas – devem ser cultivados. Precisamos de espaço não só para acrescentar coisas novas, estudar, descobrir, mas também para aproveitar as coisas que já conhecemos.

Até para apreciar um bom chá é necessário algum vazio.

***

É preciso encontrar um equilíbrio: cultivar os vazios e servir o chá. 

Amo estudar, ainda que não tenha muito critério na escolha dos temas. Quer dizer, tenho, mas não é nada pragmático. Fiz todos os cursos incapazes de gerar dinheiro: jornalismo, cinema, língua portuguesa, literatura, filosofia… Em minha defesa, comecei por três vezes cursos de programação. Abandonei todos, embora achasse o tema verdadeiramente interessante.

Acho quase tudo interessante. O mundo me interessa muitíssimo.

O desinteresse me entristece. Lamento percorrer os corredores da universidade entre adolescentes tão desinteressados. Será que sabem disso? Será que sabem como o mundo é fascinante? Ou não se importam? Ou deixou de ser? Ou sou eu? Não é que eles não queiram estudar, é que não parecem sentir tesão por muita coisa. Filmes, livros, exposições, espetáculos de balé, apresentações de teatro, shows, conversas ao ar livre, árvores, bichos, nuvens. Uma boa xícara de chá.

Meu critério para embarcar em cursos, leituras e discussões é emocional. Gosto de estudar o que gosto, ouvir outras considerações e perspectivas, absorver. Entender melhor de filmes, livros, ideias e sentimentos. Também gosto de me aprofundar em pequenos prazeres (que, assim, tornam-se muito maiores). Perceber de café, de drinks, cervejas, vinhos, chocolates, pães, docinhos.

Aprender coisas novas é como verter chá quente à xícara cansada. O coração aquece. Os horizontes se abrem, os prazeres, o gozo da vida. O que pode ser melhor?

Se eu pudesse, dedicava-me integralmente a isso. Até tento: sou professor – o que é uma maneira requintada de dizer  “sou aluno”, sempre.

Estudo para viver e vivo de estudar.«

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