arte: loro verz

»Estou de férias no Brasil. A frase me soa tão estranha que preciso repeti-la mentalmente, mais devagar, para ter certeza de que acertei os sujeitos e predicados. Estou de férias no Brasil. Dizer isso é um pouco como um peixe dizer que está de férias no oceano, ou um pássaro gozar de 30 dias de lazer no céu.

Estou de férias no Brasil depois de dois anos distante – quase integralmente tomados pela maldição desta pandemia. Dois anos sem cruzar a avenida Pompéia em direção à Vila Mariana, sem tomar café no centro, sem frequentar as padarias perfumadas da Vila Madalena, sem trotar pela Paulista, sem frequentar a Sala São Paulo e sonhar acordado, sem me perder entre quadros e estátuas da Pinacoteca, do Masp, do MAC, do MAM.

É a sensação mais estranha do mundo, dar-se conta de que o tempo é uma conveniência de calendário. Frequentemente me pego dizendo: parece que foi ontem, parece que não faz nem duas semanas que eu saí de São Paulo.  Mas foram dois anos inteiros, dois anos e um mês, para ser preciso, sem pisar nesta cidade do tamanho de um país, nesta cidade que é maior que o país onde moro.

Dois anos, no entanto: nada mudou. A gente muda, mas a cidade não. A cidade apenas troca de pele, superficialmente: uns bairros entram na moda, outros tornam-se démodé; fecham-se uns bares, fecham-se restaurantes; mudam o sentido das ruas; inauguram praças, lojas, escolas; a calçada se deteriora, as árvores crescem e retorcem, a pintura das faixas de pedestre se apaga – e renova. As cicatrizes abrem e fecham, continuamente, sem parar.

O  corpo, marcado, é o mesmo.

Por toda parte vejo as mesmas pessoas nas mesmas funções. Tem algo de eterno nos motoqueiros rindo em frente a uma pizzaria, enquanto aguardam os pedidos de entrega, na turma barulhenta a caminho do shopping, no garçom brincalhão, no motorista cansado, no zigue-zague apressado das pessoas entre os carros, cruzando as ruas, enchendo os pontos de ônibus.

O que são dois anos na história de uma cidade? E dez? Muito pode acontecer, eu sei. Mas na maior parte das vezes acontece muito pouco, quase nada. A cidade continua lá – ou aqui –, com seus braços abertos, que a gente não sabe bem se traduzem indiferença ou afeto.

É reconfortante saber que não importa para onde eu vá, agora, nem por quanto tempo, a cidade continuará aqui, frenética e impassível, pronta a me receber, sem clemência e sem condenação.

Continua pronta a acolher mais um imigrante, mais um habitante, mais um flanador. Você e eu.«

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