arte: loro verz

»Estou cansado da vossa indiferença. Seus olhos sem brilho varrem a sala, a quadra, a rua, os museus e os corpos sem se demorarem em lugar algum: esta casa poderia ser outra, este quarto, esta tela, estes olhos, este peito. Tanto faz. Tudo tanto faz.

A pupila castanha pousa ligeira aqui e ali, como um bando de pássaros sem radar, com pressa de atravessar o dia mas sem pousar em lugar algum. Todas as coisas são cativantes quando brilham, mas não o suficiente. Atraem vossa atenção por onze segundos e se esvaem negras e pálidas. De repente, frias. Nada parece vos mover para fora do mesmo círculo de minúsculas obsessões. Furam a bolha para encontrar outra, que só parece ser maior.

Eu tentei. Agora estou ficando cansado. Não é que vocês não circulem, apenas não se movem. Todas as voltas são ao redor do umbigo. Ou melhor: tudo é mesmice. Depois da odisseia do dia, de se levantar da cama com dificuldade, arrastar-se até o trabalho ou a faculdade, cumprir as obrigações mínimas sob uma chuva de lamúrias, vocês retornam exatamente como partiram: anestesiados. Nada vos toca, nada vos transforma.

A cada desvio na estrada, a cada bifurcação, vocês se recusam a ousar o sonho. Como uma multidão de escrivães apáticos, sussurram “prefiro não”. Seguem pelo caminho de sempre, porque parece seguro. “Está bom”, dizem. Ou melhor: “tanto faz”. Minutos depois colhem do chão uma moeda dourada que imediatamente deixa de brilhar. E ficam tão felizes, por tão poucos segundos!

Estou cansado da vossa indiferença. Engulo espadas, cuspo fogo, me desnudo. Eu. Estou. Aqui. Frechado pelo mundo, cuspo e choro e gargalho. Que horror. Vocês olham com grande interesse até a página dois. Deu a hora. Mandam-me mensagens aleatórias e sincopadas. Acham que amam e acham que odeiam, mas na real não é uma coisa nem outra. Querem mergulhar na profundidade do abismo, mas depois de molhar os pés já procuram uma toalha. Uma foto resolve. Falam e bocejam. Todos estão entediados.

Onde estão os seus olhos? Onde estão as suas bocas? Cansados, apoiam-se uns aos outros, como uma pirâmide modorrenta prestes a desabar, prestes a desabar, mas que nunca desaba.

O que seria de vós, o que seria de ti, se fossem realmente tocados por uma paixão?«

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