arte: loro verz

» Os estereótipos invariavelmente nos irritam, mas nem por isso nos livramos deles. Perguntei aos japoneses o que pensam quando pensam em Brasil. “Carnaval”, o garçom respondeu, empolgadíssimo, sem ligar para o inglês vacilante.

Não satisfeito com minha reação fria, aquele sorriso amarelo-putz-sem-jeito, estendeu o celular e, com a ajuda do Google, enumerou retratos de mulatas sorridentes, cabrochas seminuas no auge dos desfiles. “Biu-ti-ful; biu-ti-ful”, repetia, maravilhado, tentando me conquistar no axé. “Brasil”.

Para outro, o Brasil tinha nome. Neymar Júnior. Por alguma razão, os japoneses sempre pronunciam o júnior. “Football.” “Neymar Junior.” “Brasil.” “Great.” Numa loja de artigos esportivos, um cartaz ostentava o sorriso sem jeito de um outro esportista, o veterano Zico, anunciando chuteiras. Bem Brasil.

Mais ponderado, o terceiro amigo japonês foi o único a pensar por mais de um segundo antes de dizer: “perigoso”. Não sabia nada do Brasil, confessava, mas tinha a impressão de que era um país muito perigoso. Tipo a Rússia, a África de Hollywood.

Mas minha indignação, aquele orgulho nacional ferido, arrefeceu com os dias. Com os dias, afinal, descobri que japonês não come peixe cru sempre – aliás, vi mais pedidos de arroz, porco e frango bem fritos. E eu, que imaginava que do café à janta se comia sushi, percebi o ridículo. Afinal os estereótipos, à luz da vida, que não se encaixa em esquema, em verbete, sempre se revelam ridículos.

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Os japoneses também não se vestem de um jeito ultraesquisito e modernoso, não se fantasiam de personagens de desenho animado, como dez entre dez programas de turismo me informaram na véspera. Não quer dizer que não haja cosplay, mas apenas que é tão incomum encontrar isso lá quanto na Liberdade, por exemplo.

Para minha decepção, não fui atendido, cumprimentado, abraçado, acariciado ou informado por robôs. Em uma das casas em que me hospedei, um manual doméstico alertava: “Eu sei que você deve imaginar que no Japão tudo é muito automático e muito robotizado, mas, na verdade, não é assim. Eis as instruções para tomar banho quente”. E seguiam-se artesanias minuciosas: abrir a válvula de água, abrir a válvula de gás, regular o gás com uma série de movimentos precisos, aguardar uns minutos até esquentar a água, tomar o banho – aliás, de pouca água. Qualquer manopla mal ajustada significaria banho frio ou nenhum.

Para me deslocar de canto a outro, precisava de paciência. No mapa, antes da viagem, tracejava de norte a sul imaginando que, de trem bala, seria rápido percorrer a ilha. Surpresa: não é tão pequena como parece a nós, continentais, e uma viagem de Tóquio a Quioto leva 6 horas de carro (3,5 horas de trem). Ir de Tóquio a Hiroshima não sai por menos de 9,5 horas (carro) ou 5 horas (trem). E a paisagem e o povo mudam muito. Há japões como há brasis.

 

Vencido, deixei que os japoneses imaginassem que o Brasil é samba e selva, mais ou menos a mesma coisa que imaginamos da África (sempre no plural, já que não sabemos singularizá-la), por exemplo. Japonês também não é nerd modernoso.

Que fazer? Viajar mais. E convidar os gringos a conhecer os brasis. «

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