arte: loro verz

»Estamos em busca do nosso desejo.

Ergo a cabeça para ver o mar. No horizonte o reflexo do sol embaça a visão. Olho para mais perto. A poucas dezenas de metros as ondas arrebentam contra as pedras, violentíssimas. O barulho abafa a conversa dos raros turistas de meio de semana. Quase não venta. Tento perceber qualquer coisa de incomum na arrebentação das ondas, na espuma do mar, atento ao menor sinal, mas.

Saímos em busca do nosso desejo. Talvez estivesse na praia, protegido pelas grutas? Dentro das conchas, enterrado sob a espuma? Saímos à procura não da realização do desejo, mas do desejo ele mesmo, o animal que desaparece entre as folhagens, veloz como um réptil, translúcido como as asas de um mosquito.

Nada, hoje. Tudo parece especialmente ordinário. O desejo sabe se camuflar, sabe ser tudo e sabe ser nada. As pedras, as gaivotas, a água, os corpos, o metal, a cerveja, o olhar. Brisa, vegetação, inseto e cor. Brinca de ser forma e espaço vazio – que ainda assim tentamos capturar.

A areia grossa da praia penetra entre os dedos. Coço os meus tornozelos e sorrio. Será este o meu desejo?

Tão bom. Mas não. Se for, voou, partiu. Ele é um outro.

Será que não existem mais desejos? Será que foram extintos junto com as enciclopédias e os mimeógrafos, os pterodáctilos e as tartarugas de Galápagos? Será que o animal desejo virou um fóssil, uma aglomeração primitiva de ossos, tecidos, terra e rocha? O desejo é uma coisa antiga então, e não muito bonita, como aquelas antiguidades do porão da avó que, após herdadas, não sabemos onde guardar nem como cuidar. Desejo é matéria de arqueólogos – e quem sou eu, o que posso ter desejado, desde a primeira infância?

Será que a gente também herda os nossos desejos no baú dos nossos antepassados, como pequenos bibelôs de porcelana?

Ou só o que nos chega é pó. Sacudimos a areia dos pés – os olhos apertados agora seguem fixos na caminhada, enquanto saímos da praia. É importante cuidar onde pisamos. Vamos em busca do nosso desejo. Não da posse, mas do mapa. Não carpintaria, mas navegação. Estará na orla? Na estrada? Na cidade?

Ao meu redor vejo as armadilhas: espelhos, gaiolas, mel. As pessoas estão, também, caçando os seus próprios desejos – em vão. Querem segurar o obscuro objeto entre as mãos. É inútil.

Eu só queria avistá-lo, mesmo de longe. Eu quero dar um nome para o meu desejo. Assim como qualquer leigo pode batizar uma estrela nunca antes avistada, quero dar um nome à estrela do meu desejo.

Mesmo bicho, mesmo pedra, mesmo pó, ele será lembrado. Ele será lembrado até que caia sobre as nossas cabeças o céu, será lembrado até que o sol se apague na noite dos tempos, será lembrado até que a poeira dos fósseis soterre os nossos corpos, os nossos espíritos e os nossos desejos.«

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