arte: loro verz

A eletricidade no ar, a pressa, a angústia não me deixam enganar. Os shoppings lotados, as vitrines apinhadas, as lojas transbordando gente não me deixam enganar. As luzes piscantes nas ruas, a profusão de vermelho e verde, o trânsito recorde não me deixam enganar. As filas, as etiquetas de preço, os envelopes de mala direta não me deixam enganar. Os aeroportos lotados, as rodoviárias lotadas, as estradas lotadas não me deixam enganar.

Um velho postiço, de barba postiça, de barriga postiça, em trajes glaciais sorri e acena em meio ao próprio derretimento. Em São Paulo, 33 graus.

É Natal.

A minha amiga Nathália diz que o consultório fica cheio nesta época. Atende todo tipo de gente: adolescentes, adultos, velhos; negros, brancos, amarelos; ricos, pobres, remediados; solteiros, casados. A angústia é comum. É Natal.

Estão em crise natalina. As famílias estão distantes ou encolheram. A maior expectativa de vida não trouxe, misteriosamente, natais mais animados, com diversas gerações à mesa. Estão separados pelo trabalho, estão separados pelo divórcio, pelas distâncias, pelas brigas, pelo cansaço.

Adolescente, achava estranho o hábito de um vizinho que viajava todo Natal. Estranho porque sua viagem não era um encontro, como para mim deveria ser. Sua viagem sempre fora uma fuga, um desencontro. Viajava para longe em pleno Natal; se possível, atravessava a data nas nuvens, a 10 mil pés de altitude. No Ano Novo, repetia a operação.

Nunca me atrevi a perguntar o porquê daquele ritual às avessas, daquela fuga que se sofisticava e sedimentava ano a ano. (No afã de fugir das cerimônias familiares do Natal e do Réveillon, criara uma cerimônia ainda mais complexa, que envolvia longos períodos de poupança, intrincado planejamento logístico, reservas antecipadas e, claro, justificativas genéricas às curiosidades mais recorrentes).

Hoje entendo melhor seu Jair e seu ritual. Figura pacata, tristonha, baixo e atarracado. Era como se o próprio corpo estivesse voltado para dentro, para si, para fugir aos assuntos do mundo. Tinha olhos pequenos, penetrantes, e cabelos negros, da ascendência árabe. Aos cinquenta anos de idade, morava ainda com a mãe.

Nunca soube como a velha passava o Natal – talvez com parentes no interior. Mas entendi, tardiamente, a urgência de fuga de seu Jair. Sua sensação de deslocamento perpétuo, que se acirrava na época dos falsos Papais Noéis oferecendo falsos abraços e doces embalados a vácuo. Oferecendo um Natal industrializado e embalado a vácuo.

Não sei se de lá para cá as sensações e festejos de fim de ano pioraram ou se sempre foram algo assim, industrializadas. O verme da nostalgia, que me corrói silenciosamente, me impele sempre a crer que os Anos Dourados passaram. Será?

Pela janela vejo todos correrem como animais açodados. Subitamente percebem que têm apenas duas semanas para resolver todas as pendências do ano. Alguns quererão fazer um filho, outros, escrever um livro, outros ainda, esculpir um corpo televisionável. Eu tento me distrair de todas as coisas que não fiz – e não farei, certamente, antes do 31 de dezembro.

Ligo o rádio.

Uma ouvinte angustiada pede a um consultor financeiro que a ajude a administrar as compras de Natal. Fez as contas e previu um gasto de três mil reais, somando presentes aos amigos “VIPs” (R$ 100 a unidade), aos “queridos” (R$ 70) e à gente que ganhará “lembrancinha” (R$ 30). Multiplicou e somou as despesas. Desesperou-se. Nem com todo o décimo-terceiro salário poderia pagar.

Esqueceu, coitada, que Natal não é tempo de fazer ou de prestar contas; de somar ou de multiplicar fatores. Melhor seria dividir.

A solução? Nenhuma. Há problemas que não têm solução – no Natal e na vida. Apenas aceita-se, a seu tempo, a sua extensão.

[Eu gosto do Natal, o meu Natal, cheio de gratuidades: abraço de criança e cachorro girando ao redor da árvore.]