arte: loro verz

»Em certo sentido, é impossível viver. Nem falo dos desgovernos e desgovernantes que têm apetite pela destruição, nem falo dos ressentidos que saem das tocas babando e gritando, nem falo do aquecimento global, do noticiário mundial, da pandemia.

Em certo sentido, é impossível viver porque é impossível até mesmo fincar os pés no chão e apreciar o entorno. Estamos sempre em preparação.

Estamos sempre à espera de algo. Desde que passamos a ter identidade própria, desde que passamos a dizer “eu sou” e “eu quero”, alguém – uma mãe delicada, um pai educador – nos ensina que é preciso sacrificar a felicidade presente em nome da felicidade futura. Ou seja, é preciso preparação.

Tenho-me preparado para tudo e para todos, desde então. Varei incontáveis noites a estudar, trabalhar, poupar e planejar. Jovem, preparei-me para o vestibular. Bolsas de estudo. Entrevistas de emprego. Mudanças de cidade. Relacionamentos.

Não é que tudo possa ser melhor, é que tudo o será. A transcendência da vida é superior à própria vida: está no paraíso além-terra, no Jardim do Éden, Terra Prometida, mas também no próximo homem ou mulher, no próximo emprego, no próximo endereço. Com um punhado de sacrifício aqui, chegaremos lá.

Acontece que a gente nunca realmente sabe – e é mesmo uma pachorra que o prometam – se a felicidade do porvir poderá superar a atual. A felicidade atual, ridícula, prosaica, capenga, composta de soluços e sorrisos. Não sabemos nem sequer se poderemos chamá-la assim: qualquer coisa feliz, felicidade.

Em certo sentido, portanto, é impossível viver, porque a vida acontece aqui, agora, entre pássaros, folhas, ventanias, gritos e sussurros. É esta dor, esta sensação de desespero, este abandono. É este gozo, este sorriso, este minúsculo gesto sem qualquer significado póstumo. Este gesto banal e desimportante.

Estas palavras; é isso a vida. Não é preciso esperar que virem livro e se cubram com a gloriosa poeira dos séculos. Hoje, assim, desta forma canhestra e ridícula, já são palavras vivas, verbos de felicidade. A felicidade é um verbo.

Tem de ser assim, ou serão palavras mortas, natimortas, porque semiditas, semipronunciadas, semiacabadas – impossíveis de agarrar enquanto vestidas de esperança. Palavras ajoelhadas diante do altar de todas as coisas em suspensão, em vidência e preparação.

Palavras à espera de uma felicidade que nem sabemos se irá nos edificar – ou destruir.«

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