arte: loro verz

 

»”É por isso que casamentos dão errado”, penso eu, enquanto tento me equilibrar numa rocha lisa e inclinada para tomar fôlego.

Em algum momento, sem aviso, o verbo amar vira um substantivo. E, quando vira substantivo, a gente para. Nas trilhas selvagens desta vida, quem para desequilibra: desaba.

A montanha à frente é escarpada. Aos seus pés, parece impossível subir sem cordas, ganchos e sapatilhas de escalada. Sem, no mínimo, uma boa escada. No entanto aperto os olhos e vejo que lá em cima, lá no alto, um casal sorridente avança devagar. Com aquela inclinação, parece que a qualquer momento vão deslizar morro abaixo. Não deslizam. Ao contrário, estão quase no topo.

Eles são verbo. Eu, quantas vezes me deixei substantivo – e caí. A maior parte das pessoas, penso, é assim, e é por isso que casamentos acabam. Acabam porque o relacionar vira o relacionamento, porque o amar vira amor, porque o viver vira vida. E a vida acaba quando se torna apenas isso, vida, uma vida. Vida é viver.

A trilha rochosa me sopra sabedorias. Nos melhores e mais desafiadores trechos de caminhada, basta parar para cair. O verdadeiro equilíbrio na natureza é dinâmico: um pé seguido do outro, o contrapeso do peso, o ajuste da coluna momento a momento.

O equilíbrio é dinâmico, mas o queremos estático. Assim, o relacionar vira relacionamento, e o desbravar vira ficar – ficar em casa, ficar no sofá, ficar em segurança. Somos todos fascinados pela ideia de segurança, essa utopia. Mas nunca, em nenhum momento da vida, nem no útero nem no leito de morte, estivemos seguros. A natureza, ao contrário, é pautada pela insegurança. O tempo abre e fecha de repentemente,  os animais se devoram, as águas fluem e secam sem explicação. Os ventos mudam de direção.

Talvez por isso mesmo, por sabermos que no mundo não há segurança alguma, busquemos isso tão ardentemente, em especial nos nossos relacionamentos. A segurança de um contrato de papel, de testemunhas, de anéis, de casa, do quarto, do sofá. Intuitivamente sabemos que no mundo mundo vasto mundo nada é seguro, então vamos nos encolhendo para fabricar um falso útero.

As relações dão errado porque viram relacionamentos, e nos relacionamentos vamos cortando tudo o que é verbo, tudo o que é vasto e inseguro. As amizades, os passeios, a imprevisibilidade que marcava os dias selvagens. Buscamos esse equilíbrio estático, com os pés sobre almofadas. E, quando o controle está ameaçado, em vez de nos movermos, de entendermos que a vida é dinâmica e que talvez precisemos de dois pés, duas mãos, todo o corpo junto, para não cair, relutamos. Na imobilidade, caímos.

A vida é movimento. Parados estão todos os cadáveres; imóveis. Quer se mover, então? Me dar a mão?

É tarde demais. De repente, muito tarde. Enquanto estávamos de pés fincados nas almofadas, alheios ao verbo amar, os músculos atrofiaram. A carne treme, difícil de sustentar. Ou isso ou um vento. Ou isso ou um terremoto. Ou isso ou um estampido. Relâmpagos. Caímos.

Agora, o casal chegou ao cume, enquanto eu volto a me mexer para não deslizar pelas pedras. Não é fácil. Estamos exaustos, suados. Não é fácil, mas é bom. Avançar. Cair e levantar. Descobrir. Movimentar.«

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