arte: loro verz
»As mulheres não salvaram o Brasil. Essa promessa reverberou por semanas nas redes sociais e físicas. Com ou sem hashtags, aos brados ou murmúrios, repetiam-se as mesmas palavras de ordem: as mulheres vão salvar o Brasil.
Não salvaram.
Ao longo de vários dias, li respeitosos colunistas de imprensa sobre o assunto. Um deles, num texto meio piegas, observava o gênero de substantivos como “paz” e “esperança” para concluir que a salvação para o Brasil conflagrado só poderia vir, é claro, do voto feminino. Se “vida” é substantivo feminino, o poder feminino nos salvará a todos.
A promessa era motivada pelo sucesso da marcha do #elenão. Uma manifestação vigorosa e afirmativa, que, além de pautar um “não”, pontuou um “sim” fundamental: sim ao respeito e à civilidade, sim aos direitos humanos, sim à manutenção dos nossos poucos e suados avanços civilizatórios.
As pessoas que falavam que “as mulheres vão salvar o Brasil”, portanto, pressupunham que, ao votarem maciçamente contra o candidato-capitão, as mulheres elegeriam outro candidato e assim estaríamos salvos.
Mas a realidade é sempre mais complexa do que os slogans, por mais simpáticos que os slogans nos pareçam.
O caos do real atropela a euforia organizada dos crentes. No frigir dos ovos, mais mulheres votaram no candidato do #elenão do que em qualquer outro candidato do campo #elesim.
E aí? Será que as mulheres que votaram no homem do PSL não podem ser chamadas de mulheres?
Bobagem. São mulheres. Não são as mulheres que estão erradas. O errado é sempre o slogan. O mundo não cabe num slogan.
“As mulheres” são um grupo bastante heterogêneo de gente que vota conforme sua consciência e preocupações. Simples assim. “As mulheres” não vão salvar o Brasil – aliás, quem disse que elas assumiram pra si essa bucha? Ah, e os homens também não vão salvar o Brasil. E o Nordeste também não vai salvar – nem o Sudeste nem o Norte nem o Centro-Oeste nem o Sul.
Antes que eu me esqueça: Jair Bolsonaro não vai salvar o Brasil. Fernando Haddad não vai salvar o Brasil. Na verdade, ninguém vai salvar o Brasil de nada. A nossa salvação, se é que exista, não virá de um grupo salvacionista qualquer.
É chavão, mas é verdade: não há salvador nem salvadora da pátria. A salvação acontece, aliás, a despeito dos salvadores – nunca por sua causa.
Não há receita, não há Bíblia para animar o Brasil, mas quem sabe as manifestações de gente heterogênea, o diálogo desarmado, a vigilância constante, a educação e a reflexão sejam um bom começo. A longo prazo, com sorte, poderemos nos salvar de nós mesmos.
É assim que começa a revolução.«
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