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arte: loro verz

»A mosca azul do futebol nunca me picou. Por isso morar na Pompéia, especialmente neste domingo, especialmente a poucas quadras do estádio do Palmeiras, é de um fascínio estranho. Acordei já com fogos de artifício. Que jeito estranho de levantar! Em geral, são passarinhos. As casas da vizinhança têm periquitos – periquitos soltos, selvagens, verdes, com uma mancha azul nos bicos – que fazem as vezes de despertador, nos fins de semana. Não neste domingo.

Neste domingo o canto verde estava nas camisas, estava mais numeroso e barulhento do que em qualquer apiário. Os fogos estouraram desde cedo e continuaram madrugada adentro. No meio da tarde era possível sentir o cheiro da pólvora queimada se misturando a gritos incompreensíveis. A alegria, assim, em estado bruto, sem a artesania do dinheiro, da moda, das selfies e menus gourmets, da etiqueta, é incompreensível também.

Alegria incompreensível. Altamente contagiosa. Andar no meio da gente na rua, ouvir seu rugido, fotografar seus rostos, suas lágrimas. Um só grito: é campeão. Uma beleza selvagem, mais selvagem que os periquitos.

Nessas horas, e em tantas rodas de tantos bares e festas, lamento que meu pai não me tenha transmitido paixão parecida. Em casa, futebol sempre foi algo distante, passatempo que se deixava na TV ligada a um canto enquanto se preparava a comida ou tocavam-se os estudos. É uma pena eu não ter um time do coração. E time do coração a gente não adota, simplesmente – ao menos para mim não funcionou. Ainda que more no bairro do Palmeiras, ainda que tenha simpatia pelo clube, não sou torcedor. Futebol continua sendo o passatempo distante.

“Prefiro jogar a olhar”, sempre respondi, quando moleque. Hoje, em que a forma física já não permite o disparate, fico quieto. “Meu negócio é mais cinema, música”, respondi ao barbeiro outro dia, tentando não parecer arrogante.

As namoradas, é claro, se beneficiaram dessa minha desatenção. Jamais tiveram de disputar minha atenção com o Brasileiro, a Libertadores. Nem mesmo com a Copa. Acompanhava os resultados pelo jornal e tudo bem: dever (de brasileiro) cumprido.

O que elas não sabiam, contudo, é que ter um namorado que não aprecia o futebol não é vantagem alguma, pelo contrário. Afinal é preciso ter alguma paixão, e, entre as paixões, a do futebol é a mais singela, a mais reta. O sofrimento é simples, a alegria é simples.

Mas quando o futebol se ausenta de casa, paixões complexas – às vezes muito complicadas – tomam seu lugar. E talvez sejam paixões muito obscuras, muito particulares. Difíceis de curtir, difíceis de compartilhar.

É o contrário do abraço do campeão, em plena Avenida Pompéia, que é alegria compartilhada em estado puro e bruto. As namoradas antifutebol não sabiam que é mais fácil, provavelmente mais prazeroso, namorar um torcedor. E torcer junto.

Não é que eu ache a paixão futebolística coisa menor, pelo contrário. É imensa, tão imensa que mesmo dividida por centenas de milhares de pessoas continua grande demais. Por isso ainda tento me interessar, mas o coração não ajuda. O futebol lhe escapa. Talvez seja grande demais, e meu coração, muito pequeno.«

 

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