dezembro

arte: loro verz

trilha sonora: alone in kyoto.

» Abril é o mais cruel dos meses, germina lilases da terra morta, mistura memória e desejo, aviva agônicas raízes com a chuva da primavera.

Esses os versos iniciais de um dos poemas mais lindos que eu soube.

Saber um poema é mais do que ler: primeiro se aproximar pelas beiradas, divisar seu contorno contra a luz, sentir a garganta secar, reparar nos seus pés de bailarina – às vezes de espantalho –, deixar a imaginação tocar os seus pelos, seus cabelos.

Admirar o poema. Suas formas. As delicadas estruturas do poema – que, se realmente poéticas, desmoronam à menor lufada. A maneira como tudo se encaixa perfeitamente, mesmo num poema sujo, mesmo que escuro, ou menos que escuro, menos que fosso e muro.

Das coisas feitas pelo homem, o poema, como o sexo, é das que mais se aproximam da natureza. Tem seu próprio ecossistema, sua própria lógica e moralidade. Um poema, se poético, não é nem bom nem mau nem decente nem indecente nem qualquer coisa do tipo – assim como um cão, uma nuvem ou uma flor.

Um poema é, tem sua própria verdade. Existe, e sua existência põe a nossa em perspectiva. Com sorte, ele nos ajuda a atravessar a vida – como a Terra Devastada, de Eliot, me tem ajudado incontáveis vezes. Como um disco de Miles Davis.

Eu nunca entendi muito bem por que a cisma com abril, contudo. É o início da primavera no Hemisfério Norte, e disso a força criadora germinando lilases e desejos. Talvez a crueldade seja remoer e reviver, talvez criar seja cruel. Nascer.

Não sou Eliot nem posso querer ser, mas, se pudesse, eu diria dezembro é o mais cruel dos meses. Em comum, teríamos o signo de um nascimento esperançoso, de um nascimento poderoso, irradiando mito e magia por quase todo o planeta. Aqui também seria primavera, embora mais o fim do que início dela, e talvez as raízes agônicas já estejam ressecando a esta altura – ou quiçá afogadas pelas chuvas de verão.

Dezembro sempre me foi o mais cruel dos meses – para mim que não sou Eliot nem Gullar nem nada: um garoto em tempos de cólera, enxugando olhos trêmulos na escuridão do palco.

Dezembro é um déjà vu perpétuo, mês ensimesmado, preso ao próprio rabo. Todos os dezembros foram iguais. Coleção de chavões. Os mesmos abraços, embora às vezes por outros braços, os mesmo votos, as mesmas carnes, as mesmas canções. As mesmas notícias de chuva e crime, de política e religião.

Se o mundo é uma ilusão, uma simulação de computador, é em dezembro que desligam as máquinas para manutenção. Em dezembro os servidores são recalibrados. Enquanto isso, rodam os programas de anos esquecidos, os fantasmas de natais passados, projetando sobre nós as mesmas dúvidas, as mesmas angústias, as mesmas aspirações.

Os fantasmas de todos os natais, passados, presentes e futuros, são, ao cabo da história, todos iguais. Dezembro, folha marcada por um nascimento altivo e poderoso, é mês de assombrações. Como se nada mais pudesse ocorrer, nada mais importasse.

Uma coisa de cada vez, diz a mãe ao filho afoito. E aquilo tudo se repete, infinitamente. Quando nasce um deus, tudo o mais fica à sombra.

Dezembro é um mês que não passa, e, quando passa, não fica.  «

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